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Friday, July 27, 2012

O café «Vermelhinho», no Rio de Janeiro, nos anos 40 (4)

Morte e vida Severina: «(...) a montagem reproduz, na cenografia, obras do seu pai [], especialmente as da série “Retirantes”, realizada entre 1940/60 e que dimensiona a miséria da seca e da fome no Nordeste»



Iberê Camargo:
In Gaveta dos guardados
Bar Vermelhinho, ponto de encontro dos artistas e intelectuais do Rio de Janeiro na década de 40.
[Legenda de uma imagem em: Iberê Camargo: catálogo raisonné. Gravuras
Outros:
Joel Silveira: A camisa do senador
«Dois bares, entretanto, reuniam artistas de todos os matizes, intelectuais, literatos, sempre no fim da tarde — momento hoje apelidado de happy hour, o Amarelinho e o Vermelhinho. Café e Bar Araújo Porto Alegre, o Vermelhinho ficava em frente à ABI, junto do MEC, do Museu e Escola de...»
Paulo de Faria Pinho: Boêmios & bebidas
Solano Trindade: O POETA DO POVO
Ainda:

Thursday, July 19, 2012

O café «Vermelhinho», no Rio de Janeiro, nos anos 40 (3)




«O Vermelhinho, famoso bar na rua Araújo Porto Alegre, no centro do Rio de Janeiro, onde a intelectualidade carioca batia ponto todos os dias ao entardecer, será cenário de encontros decisivos na vida de Athos. A partir de 1939, quando abandona o curso de medicina para dedicarse à pintura, passa a freqüentá-lo e a conviver com pintores, jornalistas, escritores, artistas, músicos e arquitetos. Foi aí que Oscar Niemeyer o encontrou pela primeira vez, embora só tenha reparado em seu talento quatro anos mais tarde, em 1943, quando o viu desenhando no ateliê de Burle Marx e lhe encomenda um projeto para os azulejos externos do Teatro Municipal de Belo Horizonte. Embora a obra tenha ficado inacabada e o painel não tenha sido realizado, em 1955 Athos realiza a sua primeira colaboração efetiva com Niemeyer, com os azulejos do Hospital Sul América no Rio de Janeiro.»

Saturday, July 14, 2012

O café «Vermelhinho», no Rio de Janeiro, nos anos 40 (2)


Vinicius de Moraes
 

«Uma descrição preciosa do Vermelhinho aparece no poema “Mensagem a Rubem Braga”, que Vinicius escreve nos anos 40, para o amigo que está no front, como correspondente de guerra.»


 

[Priscila Risso]

In Prosa - Vinicius de Moraes

«(...) Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da Caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
(...)» 

Vídeo:

Saturday, July 07, 2012

O café «Vermelhinho», no Rio de Janeiro, nos anos 40 (1)

Carlos Drummond de Andrade, por Portinari

Ler Drummond e chegar ao «Vermelhinho»

Sabia que António Aniceto Monteiro frequentara o café «Vermelhinho». Procurei o «Vermelhinho» em Lisboa e até no Porto. Em vão. Até que um dia, muito tempo passado, lendo a crónica «POETAS EM MAIO», de Carlos Drummond de Andrade, deparei-me com este trecho:

«É possível que o nosso grande poeta [Vinícius] se tenha enganado, e que não devamos dividir uma cidade entre centro e subúrbio, mesmo sem propósito de discriminação hierárquica e sentimental. As distinções sociais e econômicas visíveis em todo agrupamento urbano não podem ser expressas pela fórmula esquemática de centro e subúrbio, de Copacabana e Madureira, de tal modo se justapõem às contradições mais gritantes em cada bairro ou em cada rua da cidade. De qualquer modo, os novos do Rio não compareceram em quantidade apreciável, e os da província foram pouco a pouco desaparecendo, ignoro por quê. A experiência ficou limitada a um suplemento. Os outros mantêm o critério dos nomes feitos, bons ou ruins, mas feitos. Do lado de fora, circulando entre o Amarelinho e o Vermelhinho, ou entre cafés menos célebres, e espalhando-se mesmo até Niterói, os rapazes de vinte anos sentem falta de jornal ou revista, falta física, como de amor, e quem já passou pela idade sabe que, nessa época, o nome impresso tem macieza de pele acariciada ou gosto úmido de beijo na boca. Não basta escrever, é necessário publicar; de preferência num quadro. Acredito que a exposição de poesias, além do seu caráter de afirmação ou sinal, derivou dessa carência.»

Este «Vermelhinho» não era em Lisboa, nem no Porto, nem sequer em Portugal. Era no Brasil, no Rio de Janeiro.
Nos anos 40, além de Drummond, muitos intelectuais, como , , , Vinícius, frequentavam o «Vermelhinho», assim conhecido pela côr das suas cadeiras de palha.

Para ir do Amarelinho para o Vermelhinho, atravessava-se-se a Praça Floriano (a Cinelândia). O «Vermelhinho» ficava na Rua Araújo Porto Alegre, em frente à ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que, por sua vez, fica no nº 71 (R. Araújo Porto Alegre, 71).

Monday, November 14, 2011

"JOSÉ" (Carlos Drummond de Andrade)

Carlos Drummond de Andrade, por Portinari

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José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?


E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?


Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!


Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?


(Copiado de Memória Viva / Memória Viva)

Ouça pela voz de Drummond:
José
José


CARTA DE JOSÉ
"Prezado cronista:
Permita que me apresente. Sou José, sem mais nada. Não tendo família, não tenho sobrenome. Aliás não tenho nada, salvo a particularidade de estar sempre ligado a uma pergunta que o amigo há de ter ouvido muitas vezes, e que também outras muitas terá feito ao próximo ou a si mesmo. Pergunta curiosa: ninguém pensa em respondê-la, ou porque não sabe ou porque não há mesmo resposta válida para ela. Uns chegam a supor que se trata de pergunta não interessada em ser respondida. Para outros, malgrado a característica formal, ela já é em si uma resposta. Que resposta? Uma pergunta. Morou? Não faz mal. Ela continua a ser feita.
(...)
O autor, segundo me consta, é conhecido, senão íntimo do senhor. Pois então, leia de novo o poema que se refere a este seu criado, e diga se estou certo em responder eu mesmo — afinal — à pergunta que muita gente se faz: E agora, José? Agora, continuo. Atenciosamente, José."
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Correio da Manhã, 14/06/67
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Ver neste blogue:

Monday, September 12, 2011

A força poética do conhecimen​to científico​ [numa crónica de Carlos Drummond de Andrade]

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«A descober­ta é a própria poesia»
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«ah, que sei apenas escrever a palavra estrela, e jamais descobrirei uma...»
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Carlos Drummond de Andrade, por Portinari
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O COMPANHEIRO OCULTO DE AITKEN-14

Cada vez sinto mais a força poética do conhecimento científico. Poeta, para mim, neste momento, é Ronaldo Ro­gério de Freitas Mourão, astrônomo-chefe da Seção de Equatoriais do Observatório Nacional. Seus livros de ver­sos não contêm versos, embora obedeçam à métrica mais exigente: a micrométrica. Usa o menor número possível de palavras; exprime-se por algarismos, com rigor matemático. Entretanto, Rogério vê o invisível, o que me parece ser o objeto principal da poesia, e resultado que raros poetas conseguem obter em raros instantes de felicidade verbal.
Ver o invisível? Isso mesmo. Armado de poderosas len­tes de observatório, não se satisfaz com o que elas lhe reve­lam; vai além, e, a poder de cálculos, identifica, suspensos no espaço, corpos alheios à vista humana. Ainda agora, des­cobriu o companheiro oculto de Aitken-14, estrela dupla.
As estrelas duplas são o forte desse moço pesquisador celeste que já editou quatro séries de dados sobre pares de estrelas, fruto de observação própria. O catálogo do Lick Observatory, em 1964, informa sobre a existência conheci­da, até 1960, de 64.247 estrelas duplas. Nesse universo fan­tástico, Ronaldo se move com a perícia (e a intuição poética) do caçador submarino que fisga espécies novas para oferecê-las ao conhecimento humano.
Estrelas duplas, ou binárias, são as que se apresentam com características comuns de posição e movimento. O padre O'Grady, em seu dicionário do céu, salva minha igno­rância, anotando que a origem desses sistemas estelares ainda é objeto de discussão; admite-se geralmente que as duplas resultam da divisão de estrelas simples, do mesmo modo que, ao se dividirem as duplas, se criam as triplas, e assim por dian­te. Seja como for, o certo é que a imagem desses astros con­jugados em órbita é de extraordinária eficácia lírica. A relação amorosa fatalmente se insinua no conhecimento cien­tífico, ou este é que o sugere. Estrelas que não querem viver desgarradas, que se prendem por uma necessidade maior, de­nunciada pelo Dante: l'amor che move il sole e l'altre stelle. O verso medieval não se gastou, depois de tão repetido pela demagogia poética: a ciência de nossos dias o comprova.
Aitken-14 não se satisfez com a existência geminada; guar­da consigo o segredo de outra companhia, de que Rogério Mourão foi descobridor à custa de muita e ordenada pesqui­sa, ele que retificou as medidas internacionais da Dunlop-203 e devassa o céu noturno, sem Lua, por meio de uma "câmara todo-céu", de sua concepção. Que companhia é esta, invisível mas pulsante na página cheia de números? A objetiva mais poderosa ainda não logrou captá-la. Não há imagem brilhante, disco estelar, anéis de difração. Tudo está entre Rogério e a fo­lha de cálculos enigmáticos para nós leigos, mas isto se move, isto vibra, e amanhã, daqui a não sei quantos anos, terá co­nhecida sua natureza, sua composição, seu mistério; será tal­vez pisado por pés de homem. Segundo o Informe JB, que dá a notícia, Rogério sabe que tão cedo sua descoberta não será cantada em prosa e verso. Nem precisa de canto. A descober­ta é a própria poesia. Forma diversa da usada habitualmente para manifestar a criação poética, e mais direta: a criação do próprio fato de poesia, abstração tornada realidade. Não, Ro­naldo Rogério de Freitas Mourão não necessita de prosa ou verso, ou versiprosa, para que visualizemos sua estrela ocul­ta: ela está luzindo com apenas ser enunciada, e daqui lhe con­fesso minha inveja: ah, que sei apenas escrever a palavra estrela, e jamais descobrirei uma...
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Jornal do Brasil, 26/05/70
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