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Monday, November 12, 2012

O julgamento de Alonso Ribelas (Aquilino Ribeiro, Quando os lobos uivam)

LEVANTE-SE o segundo réu! — proferiu na sua voz pastosa e forte, revigorizada pelo descanso da noite, ao abrir às dez da manhã a audiência, o desembargador Octávio Rouvinho. — Alonso Ribelas, não é? Antigo regedor da freguesia. Proprietário, natural de Favais Queimados, casado? Sabe de que é acusado?
— Ao certo não sei, não senhor — respondeu Alonso Ribelas, um homem na força da vida, entroncado, guedelhudo, com grandes e nervosas mãos, as manápulas do agricultor pobre que tem levado a vida a virar a leiva, a fazer da pedra terra, olhos mansos de boi, dentuça sólida. Bem vestido para o tronco de nozelhas que era, uma gravata rubra, com pintinhas pretas, parecia uma facada aberta na pescoceira de bronze. Na estrutura e nos modos, tipo de Sancho Pança.
— É acusado de ser um dos cabeças de motim no Perímetro Florestal da Serra dos Milhafres. O réu foi um dos que deram fogo...?
— Nunca soube pegar duma arma.
— Não fez o serviço militar?
— Não senhor.
— Com esse corpanzil?
— Livrei-me.
— Remiu-se, quer dizer.
— Não, senhor, livrei-me na Junta. Bem haja quem pôs a mão por mim, que foi o pai do senhor Dr. Labão aqui presente.
Ao corregedor, Dr. José Ramos, pareceu aquele solto falar irreverência ou aleivosia contra o Estado, cominado de venialidade num dos seus órgãos, e acudiu em tom de desfastio:
— Passou-se isso no tempo da outra senhora...?
— Saiba V. Ex.a que fui casado uma só vez.
Estalaram risos na assistência. O próprio senhor Presidente desanuviou o parecer carrancudo. Ao digno assessor porém o desconchavo soou falso, afigurando-se-lhe o homem zorato ou desbocado.
— O réu está-nos a sair um grande maloio...
— Saloio, não senhor. Sou serrano. Decorreu um pequeno silêncio durante o qual o corregedor se compenetrou, olhando em face, da atitude hílare do tribunal. E tentou um retruque prudente, cortando todo o campo ao contra-ataque:
— Afinal se o isentaram na Inspecção é porque algum achaque lhe descobriram. Nos miolos ou nos ouvidos. O réu ouve mal. Mas adiante: perguntava-lhe o meretíssimo Presidente se não foi dos que deram fogo...?
— Nem com fuzil e pederneira, que não sou fumador.
— Mas empunhava uma gancha... uma faca de matar os porcos... um estadulho... Viram-no equipado, bota de carda no pé...
— Por essa altura andava descalço, senhor juiz, que trazia um calo assanhado no calcanhar que não me consentiria calçar a botina.
— Não é o que rezam os autos. — Lendo: Marchava à frente do bando, soltando grandes urros e gritos de viva e de morra...
— É falso. Eu nem aos lobos posso berrar que se me abre o peito. Há tempos andava numa propriedade que tenho a um lugar chamado a Cheleira do Negro, veio uma alcateia e levou-me uma borrega mesmo diante dos olhos. Pois com a folha cheia de gente ninguém me ouviu berrar à coa! tão sumida era a minha voz.
— Não é a impressão que dá, ouvindo-o falar.
— Em conversa, dizes tu, digo eu, posso passar um dia inteiro que não me canso.
— Mas que grande ratão! — proferiu o corregedor José Ramos Coelho voltando-se para o Presidente, como quem diz: tome conta dele e meta-lhe bandarilhas de fogo.
De facto o presidente, empertigando-se no cadeiral, fez um cite com a cabeça e lançou:
— Que política é a sua?
— Saiba Vossa Senhoria que eu de polítigas não percebo patavina. Não leio gazetas.
— Já foi regedor.
— Já fui a pedido do pai do Sr. Dr. Labão que me livrou da mochila.
— Nunca votou?
— Ah, lá isso votei, mas agora cortaram-me o nome para não votar contra o Governo. Nós todos na serra estamos à uma contra o Governo.
— Mas sabe quem governa?
— Quem governa? Sei lá quem governa? Quem governa o mundo, sempre ouvi dizer que é o Raimundo; deve ser algum filho de má mãe, que as coisas vão de mal a pior.
— O réu está a ser acintoso. É parvo ou faz-se?
— Nasci com os meus sentidos todos. Lá em dizer que quem governa o mundo deve ser algum filho de má mãe, não volto atrás; que hei-de eu dizer, cada vez mais pobre, mais carregado de tributos, mais frígido do arrocho, a soga cada vez mais tesa?
— Não sabe o que diz e é o que lhe vale. À barra da direcção estão grandes homens. Se tivesse uma centelha do senso que neles abunda, não se achava no banco dos réus. Nunca os ouviu falar?
— Nunca ouvi eu outra coisa. Quer que lhe diga, são ladrações num outeiro. Eu quanto mais trabalho e mais poupo, mais miserável me vejo.
— Vamos ao que importa: confessa haver tomado parte no barulho da serra dos Milhafres?
—Confesso, quê? Eu não posso confessar ter feito aquilo que não fiz. Nunca eu veja a luz da salvação se minto.
— Mas foi na turba-multa?
— Fui até certa altura.
— Pois não devia ter ido. Um só passo que deu tornou-o cúmplice.
— Sempre queria ver quem nos roubava...
— Ou quem poderia contribuir para melhorar a sua sorte... Ora diga-me cá: Entraram muitas pessoas no rebuliço?
— Quantos nasceram na malfadada serra dos Milhafres e ouvem pelas noites de inverno uivar o lobo.
— Assistiu à sedição?
— A quê?
— À zaragata?
— Não senhor, a certa altura meu compadre Chico Barrelas disse-me: Voltamos para trás, Alonso. Esta gente corre à perdição. Fomo-nos meter na loja do tio Lêndeas a petiscar e a jogar as cartas.
— Foi um dos que andaram a pregar a guerra ao Governo?
— Não, senhor, ninguém pregou a guerra ao Governo. Nós todos somos gente de paz. Tomáramos nós que nos deixassem. O que se dizia de povo para povo é que íamos ficar desgraçados, sem coiro e camisa.
O desembargador Rouvinho Estronca Briteiros abriu os braços, sinal de que instar aquele brutamontes, por jeito ou ronha arvorado em rei da madureza, era o mesmo que malhar em ferro frio. E logo o representante do Ministério Público pediu vénia para duas perguntas.
— O réu sabe ler e escrever?
— Gatafunho o meu nome e, lá de ler, arranho... arranho.
— Que livros lê?
— O Mestre da Vida, o Seringador...
— Ê por conseguinte um homem mais responsável do que inculca a sua rudeza. Peço aos dignos juizes de tomarem na devida conta a minha observação. Quem disparou contra o engenheiro Lisuarte Streit da Fonseca?... Não sabe quem foi?
O réu abanou a cabeça.
— Não seria o réu? Ribelas deu um salto:
— Eu estava na loja do tio Lêndeas quando se deu o barulho.
— Não é o que se afirma nos autos. Mas pode apurar-se... Senhor Presidente, não haveria maneira de convocar para uma das próximas audiências este tal Lêndeas? Lêndeas quê?
— Lêndeas é a alcunha. O nome é Julião Barnabé, de Urrô do Anjo — esclareceu muito solícito o Dr. Labão, advogado dos dois réus dali naturais, pronunciados no processo.
— De sorte poderá ser convocado — obtemperou o Presidente, Dr. Octávio Rouvinho Estronca Briteiros. — Pertence à comarca de Bouça de Rei. Mas o seu depoimento afigura-se-me suficientemente preciso. Não declara que ignora ter conhecimento de que o réu estivesse na sua loja aquele dia?
— Ouviram-lhe dizer: um já pateou... — tornou o representante do Ministério Público, voltando-se para o réu.
— Se me ouviram dizer: um já pateou, era negócio de chincalhão. Eu estava com uma sorte maluca. Um atrás de outro, abarbatei a meu compadre três quartilhos e um bolo. Como podia eu referir-me ao senhor engenheiro, se em Urrô só pela tardinha se veio a saber o que se passou na serra? Daí lavo as minhas mãos.
— Bem vejo que não procura outra coisa, lavar as mãos como Pilatos. Mas não há água que lhas lave...
— Não há dúvida, senhor, têm volteado muito estrume.
— ... Sujas de sangue, digo eu. As testemunhas são formais. Senhor Presidente, insto pela presença do tal Julião Barnabé Lêndeas, se é possível, e por agora ponho ponto no interrogatório deste homem...
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Wednesday, September 19, 2012

Lisboa e a Praça do Município em 1903 (num texto de Aquilino Ribeiro)

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1903 - Por falta de vocação, [Aquilino Ribeiro] abandona os seus estudos durante a primeira parte do Curso Teológico no Seminário de Beja e fixa-se em Lisboa. 
Nota: O texto de Aquilino que a seguir se transcreve refere-se à sua chegada a Lisboa nas vésperas de ir para o Seminário de Beja.
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CHEGÁMOS a Lisboa na manhã tépida, de céu ambarizado por um sol que há cinquenta anos a esta parte era raro faltar à cidade, que deixou de ser de mármore e granito para ser, no seu maior dimensional, de tijolo mal cozido e cimento roubado. E, conduzidos por Costa Nunes, fomo-nos hospedar no Hotel Portugal, que fazia esquina para o Largo do Pelourinho. O meu quarto era no terceiro andar. Eu via com olhos, não pasmados, que nunca soube o que era pasmo, mas abertos à compreensão, as grandes e amarelas tartarugas dos carros eléctricos vir rolando dos lados do Terreiro do Paço, tilintantes e pletóricas de gente. Logo após vinha o carro do Chora, com o automedonte de longos bigodes retorcidos a reger de chicote vivaz o tiro de três machos pimpões, o condutor de boné de pala, e atropeladamente naquela arca de Noé peixeiras, vendedeiras de hortaliça e de coelhos mansos, operários com suas ferramentas, em suma, segundo o termo das Ordenações Manuelinas, os misquinhos duma capital. O bulício ficava muito aquém do sonhado, embora me desse uma idéia numérica de disparidade em comparação com as ruas Formosa ou Direita, de Viseu. Mas a Câmara de tão bela frontaria, o pelourinho especioso, coroado pela esfera armilar, os prédios de roqueira solidez, incutiam a noção de capital dum reino, batida pelo tempo, com a velha epopéia impressa em suas pedras e arruados. Todavia não pressenti o sumptuoso, nem o deliquescente duma urbe meridional, de que os poetas e romancistas faziam cavalo de batalha nas suas especulações cantarizadas. Antes havia nela, nos habitantes, no céu, nas coisas, uma sobriedade afável que era grata de sentir. E por isto tudo, por essa desilusão literária, e porque representava para mim um degrau montante na escala dos conhecimentos, fiquei a adorar Lisboa desde esse dia.
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Monday, November 21, 2011

A transferên​cia da Universida​de portuguesa​, de Lisboa para Coimbra, num texto de Aquilino Ribeiro

«Na mocidade não era o homem mal apessoado que figura mais tarde nos retratos de Cristóvão Lopes. Chaveiro do pescoço, o que avultou com os anos e tomou relevo com a sua altura meã e as regueifas da face, tinha olhos garços e boca rosada, bem definida. De carácter, como já se disse, era dissimulado e, quanto a palavra, que ao seu tempo era oiro para os homens comuns, mostrou-se tão hábil político que só a mantinha segundo a maré das conveniências.» (Príncipes de Portugal: suas grandezas e misérias)
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«Possidónios», «abroeirados» e «sapateirais»
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IV

Passa também D. João III por ser um útil reformador do ensino e, implicitamente, por amigo das letras, o que admira em face do mau recado que deu dos estudos primários. Devido a incapacidade mental ou relutância ao esforço, o latim e humanidades nunca chegaram a entrar-lhe na cachimónia. Di-lo frei Luís de Sousa, o mais cauteloso e incondicional dos cortesãos.
Terem-no guindado a Mecenas do ensino deve-o sobretudo à transferência que ordenou da Universidade de Lisboa para Coimbra, e sua reorganização. Custa a admitir que despojar a capital em proveito de uma cidade sertaneja, que tal se nos apresenta Coimbra com a dinastia de Avis, possa ser considerado um mérito. As razões que se invocaram para assim proceder são de todo especiosas e verdadeiramente ludibriantes. A capital tornara-se de facto uma metrópole de desvairadas gentes, dada ao luxo e à sumptuosidade. Mercê do porto de mar, chegavam ali mais depressa que lá para o interior as auras novas. Nos navios vinham da Flandres, de mistura com missais, galhetas e mais artefactos sacros, os livros proibidos ou simplesmente libertinos. Agora que o silêncio provincial seja mais profícuo ao trabalho do enten­dimento que o bulício das cidades é discutível. Com este, coexiste o torvelinho das ideias e a febre espiritual. Os campos são bons para os bois—dizia um humorista, e realmente a natureza convida a tudo menos a pensar. Pensar é um artifício do homem, que saiu, segundo a Bíblia, das mãos do Criador ditosamente maciço e obtuso. De resto, tal modo de ver era já contraditado ao tempo pelas Universidades de Paris e de Bolonha, sitas em cidades cosmopolitas e ruidosas.
Quanto às outras razões, ainda elas se entremostram mais descaroàvelmente sofismadas. Ter-se-á escolhido Coimbra, ao tempo lá no calcanhar de Judas, em virtude do rancor inextinto que D. João III votara aos velhos lentes das escolas de Lisboa, que não teriam pejo de falar de sua memória rude, e haviam cometido o despautério de não comparecer à sua entronização de capelo e borla, subservientes e bajula­dores?
Fosse como fosse, transferiu a Universidade para Coimbra e de princípio foi o caos. Não havia ali biblioteca boa nem má, nem mesmo lugares aptos a receber mestres e discípulos. Houve que recorrer aos colégios eclesiásticos já existentes e o reitor resignou-se a dar aulas nos seus próprios apo­sentos.
Os velhos catedráticos de Lisboa, salvo Pedro Nunes, que foi ganhar um ordenado de grão-duque, recusaram-se a trocar a capital pela parvónia provincial. Mas para esta emergência estava D. João III preparado. A rogo de Diogo de Gouveia que dirigia em Paris o Colégio de Santa Bárbara, decerto em má postura económica, acedeu a tomar ali quartel para cinquenta pensionistas, que enviaria de Portugal. Chegou a completar-se esta lotação ? Não o dizem os tombos, mas o certo é que de Portugal seguiram para Paris vários mocinhos. Antes de mais nada, como a caridade bem entendida começa por nós, o principal de Santa Bárbara chamou os parentes, os Gouveias, todos eles de cepa judaica. Eram uma tribo, espertos e aplicados, e muitos, se não todos, marcaram um lugar de distinção. André de Gouveia foi chamado a Bordéus a reformar o Colégio de Guiana, caído em decadência, e nesse cargo mereceu os louvores de Montaigne. António de Gouveia leu filosofia na Sorbonne e sustentou contra Pierre de Ia Ramée, em prol de Aristóteles, uma polémica que ficou célebre. Um outro Diogo de Gouveia, com o agnome de Júnior, sucedeu na reitoria do Colégio de Santa Bárbara.
André, que era tonsurado, oferecia a D.João III a garantia das ordens sacras para professor dos seus meninos. Mais do que isso, encarregou-o de organizar o corpo docente que viria leccionar para Coimbra. Eram lugares bem pagos e a comissão portanto disputada. Vieram muitos na sua boa fé. André de Gouveia, que era oportunista, tanto assim que despira a samarra de judeu e vestira a sotaina de clérigo, em despeito destas boas qualidades de adaptação esqueceu que vinha de um país livre para a catacumba de uma sacristia.
Da mesma forma, os pobres lentes que o acompanharam, sem embargo da conformidade com as leis civis e religiosas, tudo o que havia de pensamento mais pot-au-feu, acabaram por ser relegados ao tribunal do Santo-Ofício que os encarcerou e torturou para que não tivessem a má ideia de vir ganhar a vida no país dominado por uma religião feroz que não admitia sabichões. Que foram os jesuítas que indicaram o caminho do Colégio das Artes aos familiares do Santo-Ofício, no intuito de alcançarem o monopólio do ensino? É possível. O sucedido mostra bem o apego que D. João III tinha ao ministério das letras e a delicadeza de alma que professava para com hóspedes que procuravam desempenhar a sua missão com honra. Assim ou assado, a Universidade, pedra lar das artes e letras, onde deviam prevalecer as luzes da razão em prejuízo das ideias estáticas da escolástica e da ciência antropocêntrica, tinha vivido o tempo que vivem as rosas. Dali em diante, ficou, no geral, a Instituição bafienta, inútil, arcaica, submissa às ideias feitas, onde jamais foi possível entrar um verdadeiro ar de civilização e sair outra coisa que não fossem as metanas exaladas pelo timpanismo dos mestres mais possidónios, mais abroeirados, mais sapateirais do Orbe.
 
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Príncipes de Portugal: suas grandezas e misérias, acabado de escrever e editado em 1952, foi proibido em 1953. Ler as intervenções sobre este livro nas páginas 370-377 do nº 183 do Diário da Assembleia Nacional (sessão de 13 de Dezembro de 1952). "Clicar" em 183.
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(...)
Não são só reis e príncipes que Aquilino Ribeiro amesquinha e ridiculariza, mas a própria Universidade e os seus mestres, que achincalha e reduz à mediocridade risível e enfatuada. E com isto não atinge apenas a vetusta e sábia corporação, madre da cultura, mas a própria cultura nacional, que ela fomentou e mantém.
Vozes: - Muito bem!
O Orador:- Para que a Câmara se aperceba do tamanho da injúria, vou transcrever as palavras de Aquilino Ribeiro, situadas no tortuoso perfil de D. João III, a pp. 146 e 147 do livro referido.
A propósito da transferência da Universidade para Coimbra e da reforma e renovação do ensino realizadas por aquele rei, Aquilino Ribeiro aproveita o lanço para aludir aos processos que a Inquisição moveu a alguns professores do Colégio das Artes e concluir daí que, perseguidos tais professores, o espírito científico e indagador abandonara para sempre a egrégia instituição e o País. Na verdade, Aquilino Ribeiro escreveu:
Assim ou assado, a Universidade, pedra lar das artes e das letras, onde deviam prevalecer as luzes da razão em prejuízo das ideias estáticas da escolástica e da ciência antropocêntrica, tinha vivido o tempo que vivem as rosas.
Dali em diante ficou, no geral, a instituição bafienta, inútil, arcaica, submissa às ideias feitas, onde jamais foi possível entrar um verdadeiro ar de civilização e sair outra coisa que não fossem as metanas exaladas pelo timpanismo dos mestres mais possidónios, mais abroeirados, mais sapateirais do Orbe.

Esta linguagem podem usá-la os pasquinários sarrafaçais que passam sem reparo, gorgulhando como os enxurros, a caminho da sarjeta; Aquilino Ribeiro, pela sua categoria mental e pelas responsabilidades que criou, não pode nivelar-se, barba por barba, com esses desesperados da notoriedade.
E tudo isto porquê, Sr. Presidente?
Só porque no século XVI alguns professores, que nem sequer o eram da Universidade, foram processados pela Inquisição!...
(...)
[Intervenção do Sr. Abrantes Tavares na Assembleia Nacional em 13 de Dezembro de 1952]

Ver
Desagravo. Três Discursos na Assembleia Nacional. Moção do Senado da Universidade de Coimbra

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