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Thursday, January 05, 2012

Nicolau Nasoni riscou no papel viagens aventurosas: o rosto em que uma cidade se reconhece a si própria.

Agora [o viajante] encaminha-se para a Sé. Na passagem entra nos Clérigos, olha-os de fora, pensa no que devem o Porto e o Norte a Nicolau Nasoni, e acha que é mesquinha paga terem-lhe posto o nome no cunhal duma rua que tão depressa começa logo acaba. O viajante sabe que raramente estas distinções estão na proporção da dívida que pretendem pagar, mas ao Porto competiriam outros modos de assinalar a influência capital que o arquitecto italiano teve na definição da própria fisionomia da cidade. Justo é que Fernão de Magalhães tenha aquela avenida. Não merecia menos quem navegou à volta do mundo. Mas Nicolau Nasoni riscou no papel viagens não menos aventurosas: o rosto em que uma cidade se reconhece a si própria.
Como seria a Sé do Porto nos seus tempos primeiros? Pouco menos que um castelo, em robustez e orgulho militar. Dizem-no as torres, os gigantes que vão até à altura superior do vão da rosácea. Hoje os olhos habituaram-se de tal maneira a esta compósita construção que já mal se repara na excentricidade do portal rococó e na incongruência das cúpulas e balaústres das torres. Ainda assim, é a galilé de Nasoni que mais bem integrada aparece no conjunto: este italiano, criado e educado entre mestres doutro falar e entender, veio aqui escutar que língua profundamente se falava no Norte português e depois passou-a à pedra. Perdoe-se a teima: não compreender isto é grave delito e mostra de pouca sensibilidade.
O interior da igreja avulta pela grandeza das pilastras, pelo vôo das abóbadas apontadas. Em contrapartida, o claustro, felizmente restaurado, e que vem de 1385, é pequeno, de impecável geometrismo, que a pedra nova da arcaria sublinha. O cruzeiro, ao centro, tem mutilada a cabeça de Cristo. Todo o rosto desapareceu, e na superfície lisa tentam agora os líquenes desenhar novas feições. Ao lado do claustro é um antigo cemitério. Aqui se enterraram judeus, ao lado mesmo do templo cristão, o que confunde o viajante, que a si próprio promete tirar a limpo esta vizinhança inesperada.
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Thursday, December 08, 2011

O Nasoni era italianíssimo, mas soube entender os méritos do granito lusitano...

Em Matosinhos há que ver a Igreja do Senhor Bom Jesus e a Quinta do Viso. Mas o viajante, que não pode chegar a todo o lado, ficou-se pelo Nasoni, por esta perfeita obra de arquitectura, toda composta na horizontal. O Nasoni era italianíssimo, mas soube entender os méritos do granito lusitano, dar-lhe espaço para melhor chegar aos olhos, alternando o escuro da pedra moldurante com a cal dos rebocos. Esta lição esqueceram-na os adulteradores modernos, os fabricantes do pesadelo. O viajante sabe muito bem que casas de granito custariam hoje fortunas incomportáveis, mas aposta o que tem e o que não tem como seria possível encontrar soluções economicamente equilibradas compatíveis com uma tradição arquitectónica que tem vindo a ser metodicamente assassinada. Pavores.
Cá fora, no jardim meio esventrado, há umas capelas toscas, bastante arruinadas, onde convencionalíssimos barros descrevem os passos da cruz. É esta uma coisa que muito custa a compreender ao viajante: a dificuldade que têm os homens de aprender as boas coisas, a facilidade com que repetem as más. Dentro da igreja não faltam as peças de boa escultura, por exemplo, um S. Pedro de pedra de Anca: com o bom exemplo à vista, que modelos foram escolher estes barristas sem inquietação na ponta dos dedos? A pergunta não tem resposta, mas a isso está já o viajante habituado.
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Monday, December 05, 2011

O melhor de Mateus ainda é o Nicolau Nasoni...

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Torna o viajante a Vila Real, e agora, sim, cumprirá os ritos. O primeiro será Mateus, o solar do morgado. Antes de entrar, deve-se passear neste jardim, sem nenhuma pressa. Por muitos e valiosos que sejam os tesouros dentro, soberbos seríamos se desprezássemos os de fora, estas árvores que do espectro solar só descuidaram o azul, deixam-no para uso do céu; aqui têm todos os tons do verde, do amarelo, do vermelho, do castanho, roçam mesmo as franjas do violeta. São as artes do Outono, esta frescura debaixo dos pés, esta alegria maravilhosa dos olhos, e os lagos que reflectem e multiplicam, de repente o viajante cuida ter caído dentro dum caleidoscópio, Viajante no País das Maravilhas.
Dá por si olhando de frente o palácio. E uma beleza maltratada em rótulos de garrafas de um vinho sem espírito, mas que, por graça de Nasoni, seu arquitecto, se mantém intacta. Coisas assim não se descrevem, e, se é certo ser o viajante mais sensível às simplicidades românicas, também é capaz de não cair em teimosias estultas. Por isso não resiste a esta graça cortesã, ao golpe de génio que é a ocupação do espaço superior com uns pináculos à primeira vista desproporcionados. O pátio parece acanhado, e é, afinal, o primeiro sinal da intimidade interior. As grandes lajes de granito ressoam, o viajante sente ali o grande mistério das casas dos homens. Lá dentro, é o que se espera: o quadro, o móvel, a estátua, a gravura, uma certa atmosfera de sacristia galante lutando contra as ponderosas erudições da biblioteca. Aqui estão as chapas das gravuras originais de Fragonard e Gérard para a edição dos Lusíadas, e quem for fácil de satisfazer em matéria de arroubos pátrios encontrará autógrafos de Talleyrand, Metternich, Wellington, também de Alexandre, czar da Rússia — todos agradecendo a oferta do livro que não sabiam ler. Com todo o respeito, o viajante considera que o melhor de Mateus ainda é o Nicolau Nasoni.
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