Saturday, April 21, 2012

Colour symmetry. Portuguese tiles: Homero Gonçalves - p2 - «p2»



Colour symmetry in the same pattern. Yellow lines are the border of a fundamental region. 2(12) and 2i mean rotations of order 2. (12) means that the colours white and brown are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the  third row of the table in Section 4.1 (Figure 11, «p2») in
Imagens copiadas da página 27 de

Friday, April 20, 2012

Camões / Schumann: De dentro tengo mi mal / Tief im Herzen trag’ ich Pein




MOTE ALHEIO

De dentro tengo mi mal,

que de fuera no hay señal.

VOLTAS PRÓPRIAS

Mi nueva y dulce querella
es invisible á la gente:
el alma sola la siente,
que el cuerpo no es dino della.
Como la viva centella
se encubre en el pedernal,
de dentro tengo mi mal.


Tief Im Herzen Trag’ Ich Pein   
(Übersetzung: Geibel)
 
Tief im Herzen trag’ ich Pein,
Muss nach aussen stille sein.

Den geliebten Schmerz verhehle
Tief ich vor der Welt Gesicht;
Und es fühlt ihn nur die Seele,
Denn der Leib verdient ihn nicht.
Wie der Funke frei und licht
Sich verbirgt im Kieselstein,
Trag’ ich innen tief die Pein.
 

(Robert Schumann Spanische Liebeslieder op. 138)

Monday, April 16, 2012

Colour symmetry. Tiles: Athos Bulcão, Brasília Palace Hotel - p2mg - «p2mm»


Colour symmetry. 2(12) and 2i mean rotations of order 2. (12) means that the colours white and blue are interchanged; i means the identity. Mirrors are represented by red lines.

This is an example of the case stated in the  fourth row of the table in Section 4.4 (Figure 12, «p2mm») in

See:
Wallpaper groups. Tiles: Brasil, Brasilia Palace Hotel - p2mg

Saturday, April 14, 2012

E ponde na cobiça um freio duro...

 160r

92
Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

93
E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

 (Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto IX)

Wednesday, April 11, 2012

Colour symmetry. Guilherme Mendes da Rocha, Brasil - p1 - «pg»

Author: Guilherme Mendes da Rocha, Arquiteto

Colour symmetry in the same pattern. Yellow lines are the border of a fundamental region. Glides are represented by green lines.  (12), (34) and (56) means that the colours interchange; i means the identity.
Colours:
1- Pink Madder Lake; 2 - Cyan; 3 - Sepia; 4 - Deep Cobalt; 5 - Peacock Blue; 6 - Light Geranium Red.

This is an example of three superpositions, (12), (34) and (56), in the case stated in the third row of the table in Section 4.3 (Figure 12, «pg») in

Monday, April 09, 2012

Charles Baudelaire: le 9 avril 1821 - le 31 août 1867



Harmonie du soir

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige,
Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir;
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige!
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir!

Charles Baudelaire, Les Fleurs Du Mal


Analyse de Harmonie du soir (Baudelaire)

Vidéos:
Harmonie du soir
(Charles Baudelaire / Léo Ferré)
-
Brumes et pluies (Charles Baudelaire / Léo Ferré)
Texte: Brumes et pluies
-
L'invitation au voyage (Charles Baudelaire / Léo Ferré)
Texte: L'invitation au voyage
-
À lire:
Les Fleurs du mal (album) (Wikipédia)
"É superior a Castro Alves e igual a Baudelaire."
Cet homme qui s'en va n'est-ce pas Baudelaire...

Sunday, April 08, 2012

Colour symmetry. Portuguese tiles: Homero Gonçalves - p1 - «p2»



Colour symmetry in the same pattern. Yellow lines are the border of a fundamental region. 2(12) and 2i mean rotations of order 2. (12) means that the colours white and brown are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the  fourth row of the table in Section 4.1 (Figure 11, «p2») in
Imagens copiadas da página 27 de

Wednesday, April 04, 2012

Leis em favor do Rei se estabelecem; as em favor do povo só perecem.


27
E vê do mundo todo os principais
Que nenhum no bem púbrico imagina;
Vê neles que não têm amor a mais
Que a si somente, e a quem Filáucia insina;
Vê que esses que frequentam os reais
Paços, por verdadeira e sã doutrina
Vendem adulação, que mal consente
Mondar-se o novo trigo florecente.

28
Vê que aqueles que devem à pobreza
Amor divino, e ao povo, caridade,
Amam somente mandos e riqueza,
Simulando justiça e integridade.
Da feia tirania e de aspereza
Fazem direito e vã severidade.
Leis em favor do Rei se estabelecem;
As em favor do povo só perecem.

(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto IX)

Thursday, March 29, 2012

Colour symmetry. Portuguese pavements: Mar largo / Portuguese pavement wave - p2mg - «p2mg»


Small circles mean rotations of order 2. Mirrors are represented by red lines and and glides by green ones. Yellow lines are the border of a fundamental region.



Small circles mean rotations of order 2. Mirrors are represented by red lines, glide reflections by green lines. Yellow lines are the border of a fundamental region. (12) means that the colours white and grey are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the third row of the table in Section 4.5 (Figure 12, «p2mg») in
Lisbon, «Rossio» - p2mg

-
Mar Azul (Cesária Évora)
Mar azul (Cesária Évora, Marisa Monte)
Texto: Mar Azul (B. Leza (Francisco Xavier da Cruz))
Sobre B. Leza (03 de Dezembro de 1905 - 14 de Junho de 1958):
‘B. Leza contód de nôs móda’

Friday, March 23, 2012

Colour symmetry. Tiles: Portugal, Palácio Nacional de Sintra / The National Palace of Sintra - c2mm - «p4gm»



Colour symmetry in the same pattern. Yellow lines are the border of a fundamental region. Small circles mean rotations; numbers mean rotations of order 2 and 4. Mirrors are represented by red lines. Glide reflections are not represented. (12) means that the colours white and green are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the fourth row of the table in Section 4.11 (Figure 15, «p4gm») in


See
Wallpaper groups. Tiles: Portugal, Palácio Nacional de Sintra - c2mm
Azulejos do Palácio Nacional de Sintra / Sintra National Palace Tiles

Wednesday, March 21, 2012

Veja agora o juízo curioso...



96
Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97
A Polidoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva de ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício,
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz tredoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências;

99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude.

(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto VIII)

«Il dipinto è ispirato al mito dell'eroina greca Danae, figlia del re di Argo Acrisio: avendo un oracolo predetto al padre che sarebbe stato ucciso da un figlio nato da lei, venne fatta rinchiudere in una torre di bronzo ma, come narra Ovidio nelle sue Metamorfosi, Giove la raggiunse nella sua prigione sotto forma di pioggia d'oro e la rese madre di Perseo.»

Saturday, March 17, 2012

Colour symmetry. Portuguese pavements: Lisboa, Praça do Município, Eduardo Nery - p4mm - «p4mm»

Versão da minha exclusiva responsabilidade, feita para este blogue, de uma parte (expandida no desenho) do pavimento da Praça do Município, de Lisboa, cujo autor é Eduardo Nery. Esta versão destina-se apenas a mostrar as propriedades geométricas dessa parte do pavimento.


Numbers mean rotations of order 2 and 4. Mirrors are represented by red lines. Glide reflections are not represented.


Colour symmetry in the same pattern. Small circles mean rotations; numbers mean rotations of order 2 and 4. Mirrors are represented by red lines. Glide reflections are not represented. (12) means that the colours white and grey are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the fourth row of the table in Section 4.10 (Figure 14, «p4mm») in

Eduardo Nery
Image scanned from the book
See:
Eduardo Nery (Official Website)
(in this blog)

Thursday, March 15, 2012

Blas de Otero (Bilbao, 15 de marzo de 1916 - Madrid, 29 de junio de 1979): «Me queda la palabra»




Si he perdido la vida, el tiempo, todo
lo que tiré, como un anillo, al agua,
si he perdido la voz en la maleza,
me queda la palabra.

Si he sufrido la sed, el hambre, todo
lo que era mío y resultó ser nada,
si he segado las sombras en silencio,
me queda la palabra.

Si abrí los labios para ver el rostro
puro y terrible de mi patria,
si abrí los labios hasta desgarrármelos,
me queda la palabra.


Paco Ibañez: Me queda la palabra

Paco Ibañez
Blas de Otero (Wikipedia)

Tuesday, March 13, 2012

Porque



Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

(Sophia de Mello Breyner Andresen, Antología poética)


Sunday, March 11, 2012

Colour symmetry. Portuguese pavements: Brasil, Londrina and Ipanema, Calçadão - p2mm - «c2mm»


«» are all drawn by Jorge Rezende


Small yellow circles mean rotations of order 2. Mirrors are represented by red lines.

Mirrors are represented by red lines, glide reflections by green lines. Small yellow circles mean rotations of order 2. Yellow lines are the border of a fundamental region. (12) means that the colours white and grey are interchanged; i means the identity.


This is an example of the case stated in the third row of the table in Section 4.8 (Figure 13, «c2mm») in


The pavement in Ipanema is similar:


See:
Wallpaper groups. Portuguese pavements: Brasil, Londrina, Calçadão - p2mm
Wallpaper groups. Portuguese pavements: p2mm
Wallpaper groups. Portuguese pavements: Ipanema, Calçadão - p2mm
"Num tempo / página infeliz de nossa história..."

(Vinícius de Moraes / Tom Jobim)

Friday, March 09, 2012

Nem creiais que fama desse a «quem acha que é justo e que é direito guardar-se a lei do Rei severamente, e não acha que é justo e bom respeito que se pague o suor da servil gente; nem quem sempre, com pouco experto peito, razões aprende, e cuida que é prudente, pera taxar, com mão rapace e escassa, os trabalhos alheios que não passa.»



84
Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
Só por poder com torpes exercícios
Usar mais largamente de seus vícios;

85
Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!

86
Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Pera taxar, com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios que não passa.

87
Aqueles sós direi que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde perdendo-a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.

(Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto VII)

Tuesday, March 06, 2012

Colour symmetry. Pavements: Brasil, S. Paulo - p2 - «p2»

Small yellow circles mean rotations of order 2. Yellow lines are the border of a fundamental region.

Small yellow circles mean rotations of order 2. Yellow lines are the border of a fundamental region. (12) means that the colours white and grey are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the third row of the table in Section 4.1 (Figure 11, «p2») in

See:
Wallpaper groups. Pavements: Brasil, S. Paulo - p2
Wallpaper groups. Pavements: p2

Saturday, March 03, 2012

Colour symmetry. Portuguese pavements: Funchal, Praça do Município - pm - «cm»

Mirrors are represented by red lines. Yellow lines are the border of a fundamental region.
Mirrors are represented by red lines, glide reflections by green lines. Yellow lines are the border of a fundamental region. (12) means that the colours white and grey are interchanged; i means the identity.

This is an example of the case stated in the second row of the table in Section 4.7 (Figure 13, «cm») in


See:
Wallpaper groups. Portuguese pavements: Funchal, Praça do Município - pm
Wallpaper groups. Portuguese pavements: pm

Saturday, February 25, 2012

Salete e Sebastiana

***
Durante um dia e uma noite Salete pensou apenas na sua mãe. Se tivesse sabido, algo que nunca procurara fazer, que ela morrera, Salete ficaria muito triste e choraria de dor. Mas a desgraçada não havia morrido. Então Salete durante vinte e quatro horas apenas sentiu ódio por sua mãe estar viva, por sua mãe estar mais feia, e mais velha e mais preta.
No fim desse período de rancor, um sentimento de pena começou a tomar conta dela. Isso começou a acontecer quando viu uma peça de seda no seu armário, que havia comprado para fazer um vestido. Ela vira sua mãe saindo de uma loja de tecidos ordinários no largo da Carioca, usando um vestido de chita estampado de cores desbotadas. Com certeza fora comprar alguns retalhos para fazer um outro vestido horrendo.
Salete pensava nisso enquanto alisava a peça de seda francesa que tinha sobre o colo. Sua mãe nunca tivera um vestido de seda; nunca sentira o prazer de sentir sobre a pele a maciez da seda, a pobre infeliz.
Uma ideia foi adquirindo contornos definidos em sua mente. Vestiu a saia e a blusa mais simples que tinha em seu guarda-roupa, tirou suas jóias. Carregando um embrulho com a peça de seda, pegou um táxi e mandou que o motorista seguisse para São Cristóvão.
«Que lugar de São Cristóvão?»
«Morr - ah, rua São Luiz Gonzaga.»
Quando chegaram à rua São Luiz Gonzaga, Salete perguntou ao motorista se ele sabia onde ficava a praça Elisa Cylleno.
O motorista não sabia.
«Eu vou indicando para o senhor.»
Rodaram por uma porção de vielas sem encontrar a praça.
«Afinal onde a senhora quer ir exactamente?», perguntou o motorista.
«No morro do Tuiuti.»
«Infelizmente eu não subo em morro, minha senhora. Muito perigoso. Nem a polícia sobe.»
Rodaram mais um pouco. Salete reconheceu a rua Curuzu.
«Pode me deixar aqui», disse.
Da rua Curuzu, ela se lembrava de como ir ao morro.
Chegou ao sopé do morro. Começou a subir, passando pelos barracos, em cujas portas viu as mesmas mulheres da sua infância, colocando roupas em varais para secar, carregando crianças raquíticas no colo, algumas grávidas; molecotes jogando bola de gude no chão de terra; homens de camisa de meia bebendo numa birosca. Todos olhavam para ela, estranhando sua presença.
«Está procurando quem, filha?», perguntou uma velha com uma criança no colo.
«A casa de dona Sebastiana.»
«Fica lá em cima.»
«Eu sei onde é.»
A porta do barraco de madeira, coberto com folhas de zinco, estava fechada. Salete bateu.
A mãe abriu a porta. Não reconheceu a filha.
«Sou eu... mamãe.»
«Salete? Salete?»
Ficaram alguns segundos caladas, a mãe limpando as mãos na saia suja, mexendo os pés calçados de tamancos.
«Trouxe um presente para a senhora.»
«Você não quer entrar...?»
Salete entrou. Ela se lembrava daqueles odores impregnando a casa: cheiros do corpo; mofo, comida rançosa; o fedor da pobreza. Os poucos móveis velhos e estragados pareciam ser os mesmos do seu tempo.
«E os meus irmãos?»
«Joãozinho está preso. Andou se metendo com más companhias. Tião sumiu de casa um dia e nunca mais voltou. Como você.»
«Eu voltei, mamãe. Abra o seu presente.»
Sebastiana abriu o embrulho.
«O que eu vou fazer com uma coisa dessas?»
«Um vestido.»
«Um vestido? Eu andando com um vestido de seda aqui no morro?»
«A senhora vai sair do morro», disse Salete, impulsivamente. «Eu vim buscar a senhora para morar comigo.»
Sebastiana cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar.
Salete aproximou-se da mãe. Abraçou carinhosamente aquele corpo barrigudo, sacudido pelos soluços.
«Me perdoe, mamãe.»
As duas ficaram chorando, abraçadas. Junto com a dor e o arrependimento que sentia, Salete pensou também que sua mãe estava precisando de um banho.
***

Veja o vídeo aqui:
Rubem Fonseca vence prêmio literário em Portugal


Wednesday, February 22, 2012

22 de febrero de 1939: Murió el poeta lejos del hogar...

Antonio Machado


Imagens retiradas de Comentando a Antonio Machado

Antonio Machado com a mulher a quem dedicou
-
(...)
Machado dort à Collioure
Trois pas suffirent hors d'Espagne
Que le ciel pour lui se fît lourd
Il s'assit dans cette campagne
Et ferma les yeux pour toujours
(...)
-
(DEDICADO A ANTONIO MACHADO, POETA)
(...)
Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar:
«Caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»
(...)
Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
«Caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»
(...)
Cuando el jilguero no puede cantar,
cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.

«Caminante no hay camino,
se hace camino al andar...»
(...)
Texto de Serrat com citações de

Saturday, February 18, 2012

Faz tempo que a gente cultiva / a mais linda roseira que há / mas eis que chega a roda viva / e carrega a roseira pra lá...

-
-
«Ao mesmo tempo em que se classificava em terceiro lugar no FIC, com "Carolina", Chico Buarque repetia a colocação no III Festival da TV Record com "Roda Viva". Não seria porém como música de festival e sim como tema de uma peça homônima que "Roda Viva" entraria para a história. Escrita por Chico em 25 dias e montada por José Celso Martinez Corrêa, essa peça estrearia no Teatro Princesa Isabel, no Rio, em 15.1.68. Criticando a situação do artista, triturado pela mídia - o personagem principal, o cantor Ben Silver, é um ídolo inventado e imposto ao público pela publicidade -, o espetáculo teve uma encenação chocante, agressiva e provocadora, pela maneira livre e audaciosa como José Celso tratou o texto, com a aprovação total do autor. Aliás, Chico aproveitaria a oportunidade para se livrar da incômoda imagem de bom moço, que teimavam em lhe impingir. Acontece que apresentada no agitado ano de 1968, quando a radicalização da ditadura caminhava para a edição do AI-5, Roda Viva gerou uma intensa reação de grupos de direita ligados ao regime, que culminou com a agressão aos atores e a destruição dos cenários no Teatro Galpão, em São Paulo, seguidas de novas agressões em Porto Alegre, o que determinou o final das encenações em 3 de outubro. Então, os participantes da peça foram enfiados num ônibus e despachados para fora do Estado, com a recomendação de não retornarem. Mas, voltando à canção, "Roda Viva" é uma longa e muito bem elaborada composição, com uma melodia soturna que realça e complementa o pessimismo fatalista do poema ("Faz tempo que a gente cultiva / a mais linda roseira que há / mas eis que chega a roda viva / e carrega a roseira pra lá..."). A canção foi defendida no festival e gravada pelo próprio Chico, com o apoio do MPB 4, numa versão que pode ser considerada como definitiva.»
 -

Monday, February 13, 2012

Wallpaper groups. Walls, Floors, Ceilings: Palácio Rio Negro, Petrópolis, Brasil - p4

-


Presença bela, angélica figura

Presença bela, angélica figura,
Em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
Gesto alegre, de rosas semeado,
Entre as quais se está rindo a Fermosura;

Olhos, onde tem feito tal mistura
Em cristal branco o preto marchetado,
Que vemos já no verde delicado
Não esperança, mas enveja escura;

Brandura, aviso e graça que, aumentando
A natural beleza c'um desprezo
Com que, mais desprezada, mais se aumenta;

São as prisões de um coração que, preso,
Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
Como faz a sereia na tormenta.

(Luís de Camões)

Saturday, February 04, 2012

Wallpaper groups. Walls, Floors, Ceilings: Palácio Rio Negro, Petrópolis, Brasil - p6





Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
 
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d'uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
 
Ela só viu as lágrimas em fio
que d'uns e d'outros olhos derivadas
s'acrescentaram em grande e largo rio.
 
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

(Luís de Camões)

Aquela Triste e Leda Madrugada Op.112 (1959)
(Fernando LOPES-GRAÇA)