Tuesday, April 05, 2011
Monday, April 04, 2011
Wallpaper groups. Portuguese tiles: p1
Sunday, April 03, 2011
Friday, April 01, 2011
Thursday, March 31, 2011
Tuesday, March 29, 2011
Faleceu a Professora Maria do Pilar Ribeiro

Ver nota biográfica:
Completaria este ano 100 anos.
Ver ainda:
No blogue "António Aniceto Monteiro"
Hugo Ribeiro
Pilar Ribeiro
No blogue "Ruy Luís Gomes"
Hugo Ribeiro
Pilar Ribeiro
Monday, March 28, 2011
Sunday, March 27, 2011
Saturday, March 26, 2011
Friday, March 25, 2011
Wednesday, March 23, 2011
Monday, March 21, 2011
Wallpaper groups. Portuguese pavements: Manaus, Largo de São Sebastião - p2mg
Calçada no Largo de São Sebastião, em Manaus, com Teatro Amazonas ao fundo. (Foto: Agecom/AM)-
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Fitzcarraldo (A film by Werner Herzog)
«The theatre is featured in the film Fitzcarraldo directed by the German director Werner Herzog in 1982. At the beginning of the film, the opera-obsessed character Brian Sweeney "Fitzcarraldo" Fitzgerald makes his way to the opera house to hear Enrico Caruso sing in Verdi's Ernani. He arrives right at the end of the opera and there are scenes of the interior of house. While it is believed that the house was constructed to attract Caruso to perform at its opening, there is some doubt that he actually did perform there.»
Sunday, March 20, 2011
Wallpaper groups. Portuguese pavements: Copacabana, Calçadão - p2mg
No mar estava escrita uma cidade...
Carlos Drummond de Andrade (in Copacabana)
Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.
Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.
Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e esperança.
Já não distinguirei, na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.
Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados,
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.
Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.
E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas
oceanos e oceanos e oceanos.
Mas um livro, por baixo do colchão
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando,
e teu retrato, amigo, consolava.
Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.
No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no pátio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,
teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.
Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.
Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.
Mas viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.
Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.
Pouco importa os dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.
Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
Essa rosa, esse canto, essa palavra.(Carlos Drummond de Andrade, Obra completa)
Nota: Esta poesia pertence ao livro A Rosa do Povo escrito entre 1943 e 1945.
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Saturday, March 19, 2011
Wallpaper groups. Portuguese pavements: p2mg
Friday, March 18, 2011
Wednesday, March 16, 2011
Saturday, March 12, 2011
A thing of beauty is a joy for ever
O Zé [José Cardoso Pires] podia ser meu pai, quase, e, no entanto, era o melhor amigo que eu tinha. Era um homem excecional. Telefonava todos os dias. Era um homem duro, cheio de arestas. Uma vez mostrou-me uma coisa do Redol, que era uma pessoa que ele admirava muito. Eu lia os livros do Redol e não gostava nada. E um dia percebi. Ele mostrou-me uma carta que o Redol, que estava a morrer em Santa Maria quando eu era estagiário, lhe escreveu. Uma carta em papel timbrado de um hotel. O timbre era uma coisa muito pomposa. E o Redol despede-se. Zé, nunca mais te vou ver, fui muito teu amigo, e tal...P.S.: Já viste papel de carta com mais mania? O Zé disse: «Foi a única vez que eu chorei como uma criança.» E o Zé, quando chega a altura do De profundis, escreveu aquele livro pequeno porque já não era capaz de o escrever grande. Foi muito diferente disto, porque eu estava cheio de força quando estava a escrever o livro, embora me tenha custado muito. Eu li, há dias, uma entrevista do escritor [José] Rodrigues dos Santos, julgo que na Visão, em que ele dizia que, se o escritor não tem prazer em escrever, o leitor não tem prazer em ler. Qualquer coisa desse género. Meu Deus... O Zé dizia: «É preciso que a gente sofra para que o leitor tenha alegria.» Lembro-me sempre daquele primeiro verso do Endymion, do Keats: «Uma coisa bela é uma alegria para sempre.» O que eu devo aos livros, e à pintura, e à música...
(...)
Monday, February 21, 2011
Laurent SCHWARTZ: «il n'est pas de "Mathématiques sans larmes" à l'usage des physiciens et des ingénieurs»
Laurent SCHWARTZPRÉFACE
Laurent SCHWARTZ
(Cours d'analyse - Cours professé à l'École Polytechnique, Paris)
Friday, February 18, 2011
Adão era medonho
(Eça de Queirós, Contos: Adão e Eva no Paraíso)
Monday, February 14, 2011
Sunday, February 13, 2011
ministros da Noite, que, como cães esfaimados me parece que toda a prata do mundo os não poderá fartar

CAPÍTULO LXXVI
Como António de Faria chegou a esta irmida e do que passou nela.
Caminhando António de Faria para a irmida que tinha diante, c'o maior silêncio que podia, e não sem algum receio, por não saber até então o em que se tinha metido, levando todos o nome de Jesu na boca e no coração, chegamos a um terreiro pequeno que estava diante da porta, e inda até ‘qui não houvemos vista de pessoa nenhũa.
E António de Faria, que ia sempre diante com um montante nas mãos, apalpou a porta e a sintio fechada por dentro. E mandando a um dos chins que estava junto com ele que batesse, ele o fez por duas vezes, e de dentro lhe foi respondido:
— Seja louvado o Criador que esmaltou a fermosura dos céos! Rodée por fora, e saberei o que quer.
O chim rodeou a irmida, e entrou nela por ũa porta travessa. E abrindo a em que estava António de Faria, ele, com toda a gente entrou dentro na irmida, e achou dentro nela um homem velho, que ao parecer seria mais de cem anos, com ũa vestidura de damasco roxo muito comprida, o que no seu aspeito parecia ser homem nobre, como despois soubemos que era.
O qual, em vendo o tropel da gente, ficou tão fora de si que caío de focinhos no chão, e, tremendo de péis e de mãos, não pôde por então falar palavra nenhũa. Porém, passado um grande espaço em que a alteração deste sobressalto ficou quieta, e ele tornou sobre si, pondo os olhos em todos com rosto alegre e palavras severas, preguntou que gente éramos ou que queríamos.
O intérprete lhe respondeo, por mandado de António de Faria, que ele era um capitão daquela gente estrangeira, natural do reino de Sião; e que, vindo de veniaga num junco seu com muita fazenda para o porto de Liampoo, se perdera no mar, do qual se salvara milagrosamente com todos aqueles homens que ali trazia consigo. E que, porque prometera de vir em romaria a aquela terra santa a dar louvores a Deos pelo salvar do grande perigo em que se vira, vinha agora a cumprir sua promessa, e juntamente lhe vinha pedir a ele algũa cousa de esmola com que se tornasse a restaurar de sua pobreza. E que ele lhe protestava que dali a três anos lhe tornaria dobrado tudo o que agora tomasse.
O Hiticou (que assi se chamava o irmitão), despois de estar cuidando consigo um pouco no que ouvira, olhando para António de Faria lhe disse:
— Muito bem tenho ouvido o que disseste, e também tenho entendida a tua danada tenção em que o fusco de tua cegueira, como piloto do inferno, te traz a ti e a essoutros à Côncava Funda do Lago da Noite, porque em vez de dares gracas a Deos, por tamanha mercê como confessas que te fez, o vens roubar. Pois pregunto: se assi o fizeres, que esperas que faça de ti a divina justiça no derradeiro bocejo da vida? Muda esse teu mao proposito, e não consintas que em teu pensamento entre imaginacão de tamanho pecado, e Deos mudará de ti o castigo. E fia-te de mim que te falo verdade, assi me ela valha enquanto viver.
António de Faria, fingindo que lhe parecia bem o conselho que ele lhe dava, lhe pidio muito que se não agastasse, porque lhe certificava que não tinha então outro remédio de vida mais certo que aquele que ali vinha buscar. A que o irmitão, olhando para o céo e com as mãos levantadas, disse, chorando:
— Bendito sejas, Senhor, que sofres haver na terra homens que tomem por remédio de vida ofensas tuas, e não por certeza de glória servir-te um só dia!
E despois de estar um pouco pensativo e confuso c’o que via diante, tornou a pôr os olhos no tumulto e rumor que todos fazíamos no desarrumar e despregar dos caixões; e olhando para António de Faria, que neste tempo estava em pé, encostado ao montante, lhe rogou que se assentasse um pouco a par dele, o que António de Faria fez com muita cortesia e muitos comprimentos. Porém, não deixou de acenar aos soldados que continuassem c’o que tinham entre as mãos, que era escolher a prata que se achava nos caixões de mistura c’os ossos dos finados que também estavam dentro. O que o irmitão sofria tão mal que duas vezes caío esmorecido dum banco em que estava assentado em baixo, como homem que sentia aquilo por ofensa grave.
E tomando pesadamente a continuar com António de Faria, lhe disse:
— Quero-te declarar, como a homem que me pareces discreto, o em que consiste o perdão do pecado, em que tantas vezes me apontaste, para que não pereças para sempre sem fim no derradeiro bocejo da tua boca. Já que me dizes que a necessidade te obrigou a cometeres delito tão grave, e que tens propósito de restituir o que tomares antes que morras, se a possibilidade te der lugar para isso, farás três cousas que te agora direi: a primeira é restituires o que tomares antes que morras, por que se não impida de tua parte a clemência do alto Senhor; a segunda, pedires-lhe com lágrimas perdão do que fizeste, pois é tão feio diante da sua presenca, e castigares por isso a carne continuamente, de dia e de noite; e a terceira partires c’os seus pobres tão liberalmente como contigo, e abrires as tuas mãos com discricão e prudência, por que o Servo da Noite não tenha que te arguir no dia da conta. E por este conselho te peço que mandes a essa tua gente que torne a recolher os ossos dos santos, por que não fiquem desprezados na terra.
António de Faria lhe prometeo que o faria assi, com muitas palavras de comprimentos, de que o irmitão ficou algum tanto mais quieto, inda que não de todo satisfeito. E chegando-se mais para ele, o começou de amimar e afagá-lo com palavras brandas e de muito amor e cortesia, certificando-lhe que, despois que o ouvira, se arrependera muito de ter cometido aquela viagem, mas que os seus lhe deziam que se se tornasse o matariam logo. A que ele respondeo:
— Queira Deos que seja isso assi, porque, ao menos, não terás tanta pena como essoutros ministros da Noite, que, como cães esfaimados me parece que toda a prata do mundo os não poderá fartar.
(Fernão Mendes Pinto em Obra Completa, páginas 169-171)
Friday, February 11, 2011
Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude. Fiz-me entender?
(...)La mattina dopo il sole illuminò un Principe rinfrancato. Aveva preso il caffè ed in veste da camera rossa fiorata di nero si faceva la barba dinanzi allo specchietto. Bendicò posava il testone pesante sulla sua pantofola. Mentre si radeva la guancia destra vide nello specchio, dietro la sua, la faccia di un giovanotto, un volto magro, distinto con un'espressione di timorosa beffa. Non si voltò e continuò a radersi. "Tancredi, cosa hai combinato la notte scorsa?" "Buon giorno, zio. Cosa ho combinato? Niente di niente: sono stato con gli amici. Una notte santa. Non come certe conoscenze mie che sono state a divertirsi a Palermo." Don Fabrizio si applicò a radere bene quel tratto di pelle difficoltoso fra labbro e mento. La voce leggermente nasale del ragazzo portava una tale carica di brio giovanile che era impossibile arrabbiarsi; sorprendersi, però, poteva forse esser lecito. Si voltò e con l'asciugamano sotto il mento guardò il nipote. Questi era in tenuta da caccia, giubba attillata e gambaletti alti. "E chi erano queste conoscenze, si può sapere?" "Tu, zione, tu. Ti ho visto con questi occhi, al posto di blocco di Villa Airoldi mentre parlavi col sergente. Belle cose, alla tua età! e in compagnia di un Reverendissimo! I ruderi libertini!" Era davvero troppo insolente, credeva di poter permettersi tutto. Attraverso le strette fessure delle palpebre gli occhi azzurro-torbido, gli occhi di sua madre, i suoi stessi occhi lo fissavano ridenti. Il Principe si sentì offeso: questo qui veramente non sapeva a che punto fermarsi, ma non aveva l'animo di rimproverarlo; del resto aveva ragione lui. "Ma perché sei vestito così? Cosa c'è? Un ballo in maschera di mattina?" Il ragazzo divenne serio: il suo volto triangolare assunse una inaspettata espressione virile. "Parto, zione, parto fra mezz'ora. Sono venuto a salutarti." Il povero Salina si senti stringere il cuore. "Un duello?" "Un grande duello, zio. Contro Franceschiello Dio Guardi. Vado nelle montagne, a Corleone; non lo dire a nessuno, soprattutto non a Paolo. Si preparano grandi cose, zione, ed io non voglio restarmene a casa, dove, del resto, mi acchiapperebbero subito, se vi restassi." Il Principe ebbe una delle sue visioni improvvise: una crudele scena di guerriglia, schioppettate nei boschi, ed il suo Tancredi per terra, sbudellato come quel disgraziato soldato. "Sei pazzo, figlio mio! Andare a mettersi con quella gente!, Sono tutti mafiosi e imbroglioni. Un Falconeri dev'essere con noi, per il Re." Gli occhi ripresero a sorridere. "Per il Re, certo, ma per quale Re?" Il ragazzo ebbe una delle sue crisi di serietà che lo rendevano impenetrabile e caro. "Se non ci siamo anche noi, quelli ti combinano la repubblica. Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi. Mi sono spiegato?" Abbracciò lo zio un po' commosso. "Arrivederci a presto. Ritornerò col tricolore." La retorica degli amici aveva stinto un po' anche su suo nipote; eppure no. Nella voce nasale vi era un accento che smentiva l'enfasi. Che ragazzo! Le sciocchezze e nello stesso tempo il diniego delle sciocchezze. E quel suo Paolo che in questo momento stava certo a sorvegliare la digestione di "Guiscardo!" Questo era il figlio suo vero. Don Fabrizio si alzò in fretta, si strappò l'asciugamani dal collo, frugò in un cassetto. "Tancredi, Tancredi, aspetta," corse dietro al nipote, gli mise in tasca un rotolino di "onze" d'oro, gli premette la spalla. Quello rideva: "Sussidi la rivoluzione, adesso! Ma grazie, zione, a presto; e tanti abbracci alla zia." E si precipitò giù per le scale.
Venne richiamato Bendicò che inseguiva l'amico riempiendo la villa di urla gioiose, la rasatura fu completata, il viso lavato. Il cameriere venne a vestire e calzare il Principe. "Il tricolore! Bravo, il tricolore! Si riempiono la bocca con questa parola, i bricconi. E che cosa significa questo segnacolo geometrico, questa scimmiottatura dei francesi, cosi brutta in confronto alla nostra bandiera candida con l'oro gigliato dello stemma? E che cosa può far loro sperare quest'accozzaglia di colori stridenti?" Era il momento di avvolgere attorno al collo il monumentale cravattone di raso nero. Operazione difficile durante la quale i pensieri politici era bene venissero sospesi. Un giro, due giri, tre giri. Le grosse dita delicate componevano le pieghe, spianavano gli sbuffi, appuntavano sulla seta la testina di Medusa con gli occhi di rubino. "Un gilet pulito. Non vedi che questo è macchiato?" Il cameriere si sollevò sulla punta dei piedi per infilargli la redingote di panno marrone; gli porse il fazzoletto con le tre gocce di bergamotto. Le chiavi, l’orologio con catena, il portamonete se li mise in tasca da sé. Si guardò allo specchio: non c'era da dire era ancora un bell’uomo. "'Rudere libertino!' Scherza pesante quella canaglia! Vorrei vederlo alla mia età, quattro ossa incatenate come è lui”.
II passo vigoroso faceva tinnire i vetri dei saloni che attraversava. La casa era serena, luminosa e ornata; soprattutto era sua. Scendendo le scale, capì. "Se vogliamo che tutto rimanga com'è..." Tancredi era un grand'uomo: lo aveva sempre pensato.
(...)
(Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Il Gattopardo - Parte I)
(Tradução)
Il Gattopardo
Wednesday, February 09, 2011
Inauguração da exposição "A Matemática de M. C. Escher"

Monday, February 07, 2011
Eye (M. C. Escher)
Eye 1946, Mezzotint, 7th and final stage-
M.C. Escher at work
Watch and listen to M.C. Escher while he is making the "Eye" mezzotint:
Mezzotint
Friday, February 04, 2011
A branca areia as lágrimas banhavam, que em multidão com elas se igualavam
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saüdosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.
89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.
90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»
91
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»
92
«Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e de piadosa humanidade,
Os velhos e os mininos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quási movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.
93
«Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.
(Canto IV. Os Lusíadas, Luís de Camões)
4 de Fevereiro
«Em 4 de Fevereiro de 1961 [faz hoje 50 anos], um grupo de angolanos ataca prisões de Luanda, tentando libertar presos políticos dando início, assim, à segunda guerra colonial em Angola – a guerra que conduziu à independência. Um dos muitos objectivos dessa acção, que envolveu cerca de 200 pessoas armadas de catanas e outras armas artesanais, era a libertação da maioria dos presos políticos do processo dos 50 que estavam na Casa de Reclusão Militar e que se suspeitava que iriam ser transferidos em breve para o Campo de Concentração do Tarrafal.»
[Angola e António Aniceto Monteiro]
Tuesday, February 01, 2011
Monangamba
Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
porrada se refilares?
Quem?
Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?
E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
– Monangambéée...
Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
– Monangambéée...
(António Jacinto, in Antologia da poesia negra de expressão portuguesa)
Saturday, January 29, 2011
Oitenta a cem mil combatentes
(...)
A residência do Humbe, a fortaleza e as suas casas dos comerciantes, eram encontradas incendiadas, tendo o incêndio tido lugar por ocasião da retirada de Naulila. Acampadas as tropas no Humbe, no terreno comprehendido entre a fortaleza, principiaram as apresenções de gentio, notando-se porem que este se fazia representar quási exclusivamente por velhos, mulheres e crianças (todos com aspecto esquelético). Os homens válidos tinham passado o Cunene, procurando refugio no Cuamato e no Cuanhama.
(...)
O gentio revoltado era aguerrido e muito numeroso (Cuanhama, Cuamato, Evale, alguns Cuanbis, e foragidos do Humbe e Dongoêna), segundo dados colhidos em autoridades, como Eduardo Costa e João de Almeida, e as informações por mim obtidas, o seu efectivo total deveria orçar por uns oitenta a cem mil combatentes e era necessário ter em conta que tinham o moral muito levantado pela retirada das nossas forças após os acontecimentos de Naulila, e tinham sido em grande parte instruídos pelos alemães, dando-se ainda a circunstancia de à frente da coligação se encontrarem os Cuanhamas, que nunca tinham sofrido o nosso dominio e cujo estado de civilisação já era, segundo todas as fontes de informação, muito apreciável.
(...)
([General] Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). Excertos das páginas 79 e 80)
*
(...)
Nada se sabe das reacções de Mandume e de Sihetekela à aproximação dos Portugueses. Pereira de Eça calculava que as forças potenciais dos seus inimigos podiam chegar a 80 ou 100 000 homens (*), o que mais uma vez revela o amadorismo dos seus serviços de informações (**). O general queria actuar antes da estação das chuvas. Acumulou, pois, no Humbe as maiores forças militares que em Angola foram reunidas antes de 1961.
(...)
(*) Pereira de Eça, Campanha do Sul..., op. cit., p. 23.
(**) Alguns meses antes, o Padre Keiling, mais outro missionário e quatro funantes tinham permitido estabelecer, a 25 de Março de 1915, um plano de ataque ao Cuanhama, cuja população avaliavam em 200 000 almas com 15 000 espingardas, sendo 8000 destas armas finas. À fé dos seus depoimentos, os oficiais do Estado-Maior não previram o ataque frontal dos Ovambos, enganando-se assim redondamente. Em contrapartida, fizeram a lista dos lengas e conselheiros de Mandume «a eliminar». Dos quatro nomes citados (Injucuma, Augusto — conselheiro de Mandume e antigo serviçal no Lubango —, Kalolo, ou Calola, e Aissongo), só o terceiro surgiria em Agosto de 1915 como a alma da resistência. Mandume não devia ser morto mas sim capturado. A. H. M. Caixa 11, N.° 27. Subsídios para a acção no Cuanhama.
Wednesday, January 26, 2011
M. C. Escher: escadarias que ascendem e descendem... cubos com as arestas cruzadas... água que desce através de um canal...
Images from the Gallery of The Official M.C. Escher Website
-
(...)
Reli a lista. Reli-a em voz alta, pausada. Não podia ser, era uma coisa que não podia ser e, no entanto, ali estava, sólida e absurda, como os famosos Mundos Impossíveis, desenhados por M. C. Escher: escadarias que ascendem e descendem ao mesmo tempo, cubos com as arestas cruzadas, água que desce através de um canal, num estranho edifício, até cair, em cascata, em direcção ao mesmo ponto, lá em baixo, ou lá em cima, de onde havia partido.
Que lindo, filha. Parece-me um milagre.
(...)
(José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal)
-
Vídeo
Fallingwater
A CG movie featuring the Frank Lloyd Wright masterpiece, by Cristóbal Vila (www.etereaestudios.com).
Sunday, January 23, 2011
O olhar de Cachipaleca
B — O ESMAGAMENTO DOS HUMBES
O primeiro recontro que assinala a reconquista do Humbe deu-se a 29 de Maio de 1915 (...). O superior de (T)Chipelongo, o Padre Ballet, que durante todo o tempo em que o Sul esteve abandonado pelos Portugueses foi o único branco do Humbe, foi pedir socorro ao batalhão de fuzileiros navais que chegara a (T)Chicusse, no limite do Humbe. Os Humbes foram repelidos por um destacamento (uma centena de homens) da Marinha (...) e de landins (caçadores moçambicanos). Foram mortos três chefes, parentes do soba do Humbe, e a resistência foi pouco eficiente. Seria nula um mês depois, quando Pereira de Eça mandou fuzileiros navais reocupar o Humbe, que estava completamente arrasado. Já nem havia água nas cacimbas ao longo do Caculovar e não havia quem enterrasse os cadáveres de animais e homens esfomeados. O Humbe foi, portanto, atingido a 7 de Julho sem resistência nenhuma.
Pereira de Eça mandou igualmente devastar a Dongoena por sete oficiais, 93 cavaleiros e 36 boers que mostraram bem o seu «valor» matando cerca de 600 Dongoenas (...), entre eles o soba Cachipaleca, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Do Humbe, da sua residência, da fortaleza e das casas comerciais tinham ficado apenas paredes calcinadas. Os homens válidos tinham-se refugiado no Cuamato e no Cuanhama. Dos Alemães (...) não havia, evidentemente, vestígios, pois já se tinham rendido ao general Botha. A guerra seria, pois, contra o «gentio» e, enquanto se esperava para o defrontar, aplicou-se uma política de terror (*).
(*) Mesmo na retaguarda e em região «amiga», as requisições de gado equivaliam a pôr à fome os Ngambos. Em data que não encontrámos, foram chacinadas uma soba ngamba e a sua gente, que se encontravam no extremo limite das forças e não podiam fornecer carregadores nem carne. Um simples acidente nos Gambos, onde pereceram de fome 10 000 pessoas. Carlos Roma Machado de Faria e Maia, «Colonização do planalto da Huíla e Moçâmedes», B. S. G. L., 36.ª série, n.° 10-12, Outubro-Dezembro de 1918, p. 302.
(René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941. Volume II, páginas 242,243. Editorial Estampa, Lisboa, 1997)
(...)
Dormi tranquilamente, bem certo que o Cachipaleca não tornava a fugir; demais havia a garantia do Manuel ficar no quarto de alba e ordem de nenhum preto se aproximar do prisioneiro.
Na manhã seguinte, já vim encontrar o desgraçado com o laço de couro trançado no pescoço e passado por cima dum dos grandes galhos da árvore frondosa do terreiro exterior, amarrada a ponta na argola do selim de um dos cavalos mais fortes do esquadrão.
Bicho feroz e raivoso, leão que fosse ou palanca vermelha gigante, não o prenderiam com maior cautela e segurança. As mãos cruzadas atrás das costas era uma tira de couro bem testa que as manietava. Nos pés, acima do tornozelo uma soga amaciada com tutano para não gretar, só permitia o movimento de se agachar, e tão justa a puseram que fazia vincos fundos provocando-lhe assim aturado suplício.
Ordenei logo que lhe desamarrassem os pés para os poder erguer à vontade, e que lhe dessem de beber. Emborcou sofregamente uma grande cuia de água que lhe deve ter causado violento mal-estar, pois o suor lhe molhava o corpo todo. Depois mandei-lhe perguntar o que é que mais queria antes de morrer. Só desejava despedir-se das suas duas mulheres e ver os dois filhos pequenos que tinha delas — um molequito dos seus cinco anos e uma cucama que andava na mudança de dentição. Veio o grupo acompanhado por dois boers que permitiram a despedida a uma distância de poucos passos. E aquele homem forte e altivo, corpo de atleta, deitou à sua pobre e amedrontada família um olhar sereno, carinhoso. E foram tão meigas e de tanta ternura as palavras que lhe disse, que havia de comover o coração mais duro, não fora o ódio e vingança presidirem o drama de que, nós outros, éramos autores e também actores.
Nós não nos apiedámos da desgraça e da dor que roubavam o chefe de uma família notável e prestigiosa na tribo, herdeira, talvez secular, do poder e honras do sobado da Dongoena. Só nos movia a desforra pela morte dos nossos e dos que tinham ficado ao nosso serviço, e que, por sua lealdade ao Manipulo (1), foram sacrificados.
(...)
Quando aquelas duas mulheres, tão a dizer com as do drama do Calvário, se afastaram para o fundo do terreiro e ia consumar-se o suplício, o Cachipaleca olhou a assistência com ar de desprezo e para além da morte, e olhou-me a mim fixamente. E então eu vi que o seu olhar tinha a grandeza e o brilho ofuscante que iluminou o remorso na noite de Caim.
(...)
(1) Maniputo: «o rei de Portugal».
(João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão, capítulo "A FERRO E FOGO", páginas 166 e 167)
Friday, January 21, 2011
A Matemática de M. C. Escher (em Oeiras)
Thursday, January 20, 2011
Começava o monstro, que se chama guerra...
Aquele barulho da corrida dos cavalos, os palavrões e berros da soldadesca, despertavam os habitantes de Moçâmedes até os de sono mais pesado.
Vultos em trajes de dormir abriam as janelas, espreitavam e benziam-se, pensando que eram demónios à solta invadindo aquela terra pacata. E logo corriam as vidraças de guilhotina, cerravam as persianas, os amedrontados, os estremunhados moradores, não fosse mau olhado do bruxedo trazer-lhes biliosa fatal, maleitas, intermitente da mabata, picada de cobra venenosa.
Mas na passagem pela Viela das Pombas, os tropas viram abrir-se uma porta e de candeia na mão, uma preta nua, dizia-lhes: «Vem cá meu bem».
Que fossem para o diabo cavalos, muares, o raio que os parta. O serviço era outro. Famintos vinham eles daquilo que a Vénus cor de ébano lhes oferecia logo ali e como recompensa dos trabalhos e perigos passados a bordo do «Cabo Verde». A nova correu célere e à porta do lupanar formou-se bicha como de entrada pró cinema em dia de estreia! Cada um deixava «uma croa», alvitraram os primeiros.
Quando a rapariga se quis levantar, isso sim! a fila já ia até à beira da esteira e um qualquer soprou a luz da candeia. Um atrás do outro, não se soube quantos ela atendeu ainda com vida, que o resto já fora depois de ter morrido por tanta gente a passar à fieira!
De manhã, quando as mucamas dos outros chalets se levantaram, deram com a porta aberta, um cachorro a lamber o sangue que tinha escorrido da esteira até à porta e a rapariga de boca escancarada e barriga pró ar já tão inchada como se estivesse prenha.
Desataram numa gritaria que parecia o fim do mundo. Acudiu toda a negrada do arrabalde e um cipaio da ronda foi dar parte à Polícia.
Escândalo tremendo, inquérito, conselho de guerra, e tudo arquivado por falta de testemunhas e provas contra este ou aquele, pois que foi uma centena ou mais a cometer o crime de assassinato. Instrumento de agressão, nem vale a pena explicar para a causa mortis ser justificada.
Começava o monstro, que se chama guerra, a dar provas da sua hediondez.
(João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão, capítulo "O «CABO VERDE»", páginas 153 e 154)
O balanço parcial das baixas portuguesas, que é um pouco mais bem conhecido que noutros locais, mostra, durante o mesmo período [1878-1916], um número mínimo de 1459 mortos (Naulila incluído mas excluídos os auxiliares) certificados, número que é razoável fixar em mais de 2000 homens, ou até 3000, se quisermos contar também os mortos por doença, que nunca ninguém será capaz de contabilizar. Por outras palavras: é provável que a posse do Sul de Angola por Portugal lhe tenha custado quase tantos mortos como a repressão das revoltas de 1961 e o abafamento da guerrilha entre 1961 e 1974.
O Sul de Angola, para os Portugueses, teve o sabor da cinza; o Ovambo teve o sabor do sangue.
(René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941. Volume II, página 264. Editorial Estampa, Lisboa, 1997)
Monday, January 17, 2011
Patrice Lumumba
Friday, January 14, 2011
Eu já não espero, sou aquele por quem se espera
Adeus à hora da largada
Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida
matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida
Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos
Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.
(Agostinho Neto, Sagrada esperança)
Ouvir:
Adeus à hora da largada









































