Friday, February 04, 2011

A branca areia as lágrimas banhavam, que em multidão com elas se igualavam

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saüdosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil Religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»

91
«Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?»

92
«Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e de piadosa humanidade,
Os velhos e os mininos os seguiam,
Em quem menos esforço põe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quási movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão com elas se igualavam.

93
«Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

(Canto IV. Os Lusíadas, Luís de Camões)


4 de Fevereiro

*
Ver ainda: ANGOLA

Tuesday, February 01, 2011

Monangamba

.
Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
porrada se refilares?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
– Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande – ter dinheiro?
– Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:

– Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
– Monangambéée...

(António Jacinto, in Antologia da poesia negra de expressão portuguesa)


Ruy Mingas:
Monangambéée...

Saturday, January 29, 2011

Oitenta a cem mil combatentes


(...)
A residência do Humbe, a fortaleza e as suas casas dos comerciantes, eram encontradas incendiadas, tendo o incêndio tido lugar por ocasião da retirada de Naulila. Acampadas as tropas no Humbe, no terreno comprehendido entre a fortaleza, principiaram as apresenções de gentio, notando-se porem que este se fazia representar quási exclusivamente por velhos, mulheres e crianças (todos com aspecto esquelético). Os homens válidos tinham passado o Cunene, procurando refugio no Cuamato e no Cuanhama.
(...)
O gentio revoltado era aguerrido e muito numeroso (Cuanhama, Cuamato, Evale, alguns Cuanbis, e foragidos do Humbe e Dongoêna), segundo dados colhidos em autoridades, como Eduardo Costa e João de Almeida, e as informações por mim obtidas, o seu efectivo total deveria orçar por uns oitenta a cem mil combatentes e era necessário ter em conta que tinham o moral muito levantado pela retirada das nossas forças após os acontecimentos de Naulila, e tinham sido em grande parte instruídos pelos alemães, dando-se ainda a circunstancia de à frente da coligação se encontrarem os Cuanhamas, que nunca tinham sofrido o nosso dominio e cujo estado de civilisação já era, segundo todas as fontes de informação, muito apreciável.
(...)


([General] Pereira de Eça, Campanha do Sul de Angola em 1915. Lisboa, Imprensa Nacional, 1921 (109 páginas). Excertos das páginas 79 e 80)

*

(...)
Nada se sabe das reacções de Mandume e de Sihetekela à aproximação dos Portugueses. Pereira de Eça calculava que as forças potenciais dos seus inimigos podiam chegar a 80 ou 100 000 homens (*), o que mais uma vez revela o amadorismo dos seus serviços de informações (**). O general queria actuar antes da estação das chuvas. Acumulou, pois, no Humbe as maiores forças militares que em Angola foram reunidas antes de 1961.
(...)

(*) Pereira de Eça, Campanha do Sul..., op. cit., p. 23.
(**) Alguns meses antes, o Padre Keiling, mais outro missionário e quatro funantes tinham permitido estabelecer, a 25 de Março de 1915, um plano de ataque ao Cuanhama, cuja população avaliavam em 200 000 almas com 15 000 espingardas, sendo 8000 destas armas finas. À fé dos seus depoimentos, os oficiais do Estado-Maior não previram o ataque frontal dos Ovambos, enganando-se assim redondamente. Em contrapartida, fizeram a lista dos lengas e conselheiros de Mandume «a eliminar». Dos quatro nomes citados (Injucuma, Augusto — conselheiro de Mandume e antigo serviçal no Lubango —, Kalolo, ou Calola, e Aissongo), só o terceiro surgiria em Agosto de 1915 como a alma da resistência. Mandume não devia ser morto mas sim capturado. A. H. M. Caixa 11, N.° 27. Subsídios para a acção no Cuanhama.

Wednesday, January 26, 2011

M. C. Escher: escadarias que ascendem e descendem... cubos com as arestas cruzadas... água que desce através de um canal...

Ascending and Descending 1960 Lithograph

Stars 1948 wood engraving


Waterfall 1961 Lithograph

Images from the Gallery of The Official M.C. Escher Website

-

(...)
Reli a lista. Reli-a em voz alta, pausada. Não podia ser, era uma coisa que não podia ser e, no entanto, ali estava, sólida e absurda, como os famosos Mundos Impossíveis, desenhados por M. C. Escher: escadarias que ascendem e descendem ao mesmo tempo, cubos com as arestas cruzadas, água que desce através de um canal, num estranho edifício, até cair, em cascata, em direcção ao mesmo ponto, lá em baixo, ou lá em cima, de onde havia partido.
Que lindo, filha. Parece-me um milagre.
(...)

(José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal)

-

Vídeo
Fallingwater
A CG movie featuring the Frank Lloyd Wright masterpiece, by Cristóbal Vila (www.etereaestudios.com).

Sunday, January 23, 2011

O olhar de Cachipaleca


B — O ESMAGAMENTO DOS HUMBES
O primeiro recontro que assinala a reconquista do Humbe deu-se a 29 de Maio de 1915 (...). O superior de (T)Chipelongo, o Padre Ballet, que durante todo o tempo em que o Sul esteve abandonado pelos Portugueses foi o único branco do Humbe, foi pedir socorro ao batalhão de fuzileiros navais que chegara a (T)Chicusse, no limite do Humbe. Os Humbes foram repelidos por um destacamento (uma centena de homens) da Marinha (...) e de landins (caçadores moçambicanos). Foram mortos três chefes, parentes do soba do Humbe, e a resistência foi pouco eficiente. Seria nula um mês depois, quando Pereira de Eça mandou fuzileiros navais reocupar o Humbe, que estava completamente arrasado. Já nem havia água nas cacimbas ao longo do Caculovar e não havia quem enterrasse os cadáveres de animais e homens esfomeados. O Humbe foi, portanto, atingido a 7 de Julho sem resistência nenhuma.
Pereira de Eça mandou igualmente devastar a Dongoena por sete oficiais, 93 cavaleiros e 36 boers que mostraram bem o seu «valor» matando cerca de 600 Dongoenas (...), entre eles o soba Cachipaleca, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Do Humbe, da sua residência, da fortaleza e das casas comerciais tinham ficado apenas paredes calcinadas. Os homens válidos tinham-se refugiado no Cuamato e no Cuanhama. Dos Alemães (...) não havia, evidentemente, vestígios, pois já se tinham rendido ao general Botha. A guerra seria, pois, contra o «gentio» e, enquanto se esperava para o defrontar, aplicou-se uma política de terror (*).

(*) Mesmo na retaguarda e em região «amiga», as requisições de gado equivaliam a pôr à fome os Ngambos. Em data que não encontrámos, foram chacinadas uma soba ngamba e a sua gente, que se encontravam no extremo limite das forças e não podiam fornecer carregadores nem carne. Um simples acidente nos Gambos, onde pereceram de fome 10 000 pessoas. Carlos Roma Machado de Faria e Maia, «Colonização do planalto da Huíla e Moçâmedes», B. S. G. L., 36.ª série, n.° 10-12, Outubro-Dezembro de 1918, p. 302.

(René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941. Volume II, páginas 242,243. Editorial Estampa, Lisboa, 1997)


(...)
Dormi tranquilamente, bem certo que o Cachipaleca não tornava a fugir; demais havia a garantia do Manuel ficar no quarto de alba e ordem de nenhum preto se aproximar do prisioneiro.
Na manhã seguinte, já vim encontrar o desgraçado com o laço de couro trançado no pescoço e passado por cima dum dos grandes galhos da árvore frondosa do terreiro exterior, amarrada a ponta na argola do selim de um dos cavalos mais fortes do esquadrão.
Bicho feroz e raivoso, leão que fosse ou palanca vermelha gigante, não o prenderiam com maior cautela e segurança. As mãos cruzadas atrás das costas era uma tira de couro bem testa que as manietava. Nos pés, acima do tornozelo uma soga amaciada com tutano para não gretar, só permitia o movimento de se agachar, e tão justa a puseram que fazia vincos fundos provocando-lhe assim aturado suplício.
Ordenei logo que lhe desamarrassem os pés para os poder erguer à vontade, e que lhe dessem de beber. Emborcou sofregamente uma grande cuia de água que lhe deve ter causado violento mal-estar, pois o suor lhe molhava o corpo todo. Depois mandei-lhe perguntar o que é que mais queria antes de morrer. Só desejava despedir-se das suas duas mulheres e ver os dois filhos pequenos que tinha delas — um molequito dos seus cinco anos e uma cucama que andava na mudança de dentição. Veio o grupo acompanhado por dois boers que permitiram a despedida a uma distância de poucos passos. E aquele homem forte e altivo, corpo de atleta, deitou à sua pobre e amedrontada família um olhar sereno, carinhoso. E foram tão meigas e de tanta ternura as palavras que lhe disse, que havia de comover o coração mais duro, não fora o ódio e vingança presidirem o drama de que, nós outros, éramos autores e também actores.
Nós não nos apiedámos da desgraça e da dor que roubavam o chefe de uma família notável e prestigiosa na tribo, herdeira, talvez secular, do poder e honras do sobado da Dongoena. Só nos movia a desforra pela morte dos nossos e dos que tinham ficado ao nosso serviço, e que, por sua lealdade ao Manipulo (1), foram sacrificados.
(...)
Quando aquelas duas mulheres, tão a dizer com as do drama do Calvário, se afastaram para o fundo do terreiro e ia consumar-se o suplício, o Cachipaleca olhou a assistência com ar de desprezo e para além da morte, e olhou-me a mim fixamente. E então eu vi que o seu olhar tinha a grandeza e o brilho ofuscante que iluminou o remorso na noite de Caim.
(...)

(1) Maniputo: «o rei de Portugal».


(João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão, capítulo "A FERRO E FOGO", páginas 166 e 167)

Thursday, January 20, 2011

Começava o monstro, que se chama guerra...

(...)
Aquele barulho da corrida dos cavalos, os palavrões e berros da soldadesca, despertavam os habitantes de Moçâmedes até os de sono mais pesado.
Vultos em trajes de dormir abriam as janelas, espreitavam e benziam-se, pensando que eram demónios à solta invadindo aquela terra pacata. E logo corriam as vidraças de guilhotina, cerravam as persianas, os amedrontados, os estremunhados moradores, não fosse mau olhado do bruxedo trazer-lhes biliosa fatal, maleitas, intermitente da mabata, picada de cobra venenosa.
Mas na passagem pela Viela das Pombas, os tropas viram abrir-se uma porta e de candeia na mão, uma preta nua, dizia-lhes: «Vem cá meu bem».
Que fossem para o diabo cavalos, muares, o raio que os parta. O serviço era outro. Famintos vinham eles daquilo que a Vénus cor de ébano lhes oferecia logo ali e como recompensa dos trabalhos e perigos passados a bordo do «Cabo Verde». A nova correu célere e à porta do lupanar formou-se bicha como de entrada pró cinema em dia de estreia! Cada um deixava «uma croa», alvitraram os primeiros.
Quando a rapariga se quis levantar, isso sim! a fila já ia até à beira da esteira e um qualquer soprou a luz da candeia. Um atrás do outro, não se soube quantos ela atendeu ainda com vida, que o resto já fora depois de ter morrido por tanta gente a passar à fieira!
De manhã, quando as mucamas dos outros chalets se levantaram, deram com a porta aberta, um cachorro a lamber o sangue que tinha escorrido da esteira até à porta e a rapariga de boca escancarada e barriga pró ar já tão inchada como se estivesse prenha.
Desataram numa gritaria que parecia o fim do mundo. Acudiu toda a negrada do arrabalde e um cipaio da ronda foi dar parte à Polícia.
Escândalo tremendo, inquérito, conselho de guerra, e tudo arquivado por falta de testemunhas e provas contra este ou aquele, pois que foi uma centena ou mais a cometer o crime de assassinato. Instrumento de agressão, nem vale a pena explicar para a causa mortis ser justificada.
Começava o monstro, que se chama guerra, a dar provas da sua hediondez.

(João Sarmento Pimentel, Memórias do Capitão, capítulo "O «CABO VERDE»", páginas 153 e 154)


(...)
O balanço parcial das baixas portuguesas, que é um pouco mais bem conhecido que noutros locais, mostra, durante o mesmo período [1878-1916], um número mínimo de 1459 mortos (Naulila incluído mas excluídos os auxiliares) certificados, número que é razoável fixar em mais de 2000 homens, ou até 3000, se quisermos contar também os mortos por doença, que nunca ninguém será capaz de contabilizar. Por outras palavras: é provável que a posse do Sul de Angola por Portugal lhe tenha custado quase tantos mortos como a repressão das revoltas de 1961 e o abafamento da guerrilha entre 1961 e 1974.
O Sul de Angola, para os Portugueses, teve o sabor da cinza; o Ovambo teve o sabor do sangue.

(René Pélissier, História das Campanhas de Angola – Resistência e Revoltas 1845-1941. Volume II, página 264. Editorial Estampa, Lisboa, 1997)

Monday, January 17, 2011

Patrice Lumumba

Patrice Lumumba
(né le 2 juillet 1925 - assassiné le 17 janvier 1961, il y a cinquante ans)
Révélations sur la mort de Lumumba. Un ex-commissaire belge a fait disparaître son corps au Congo en 1961: Près de quarante ans après l'assassinat de Patrice Lumumba dans l'ex-Congo belge, le Brugeois Gérard Soete vient de révéler son secret: une nuit de janvier 1961, il fit disparaître à la scie et à l'acide le corps du martyr congolais après «s'être saoulé pour se donner du courage». Ces brutales confessions d'un ex-commissaire de police, chargé alors de mettre en place une «police nationale katangaise», s'inscrivent dans le réexamen par la Belgique de son passé colonial, dont les circonstances de l'assassinat de Patrice Lumumba, nationaliste intransigeant et figure emblématique des indépendances africaines. (...)
-
-

Friday, January 14, 2011

Eu já não espero, sou aquele por quem se espera

.
Adeus à hora da largada


Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

(Agostinho Neto, Sagrada esperança)

Ouvir:
Adeus à hora da largada

Saturday, January 08, 2011

Ce qu'il faut de sanglots pour un air de guitare...

Il n'y a pas d'amour heureux

Rien n'est jamais acquis à l'homme Ni sa force
Ni sa faiblesse ni son coeur Et quand il croit
Ouvrir ses bras son ombre est celle d'une croix
Et quand il croit serrer son bonheur il le broie
Sa vie est un étrange et douloureux divorce
Il n'y a pas d'amour heureux

Sa vie Elle ressemble à ces soldats sans armes
Qu'on avait habillés pour un autre destin
A quoi peut leur servir de se lever matin
Eux qu'on retrouve au soir désoeuvrés incertains
Dites ces mots Ma vie Et retenez vos larmes
Il n'y a pas d'amour heureux

Mon bel amour mon cher amour ma déchirure
Je te porte dans moi comme un oiseau blessé
Et ceux-là sans savoir nous regardent passer
Répétant après moi les mots que j'ai tressés
Et qui pour tes grands yeux tout aussitôt moururent
Il n'y a pas d'amour heureux

Le temps d'apprendre à vivre il est déjà trop tard
Que pleurent dans la nuit nos coeurs à l'unisson
Ce qu'il faut de malheur pour la moindre chanson
Ce qu'il faut de regrets pour payer un frisson
Ce qu'il faut de sanglots pour un air de guitare
Il n'y a pas d'amour heureux

Il n'y a pas d'amour qui ne soit à douleur
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit meurtri
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit flétri
Et pas plus que de toi l'amour de la patrie
Il n'y a pas d'amour qui ne vive de pleurs
Il n'y a pas d'amour heureux
Mais c'est notre amour à tous les deux

Louis Aragon (La Diane Francaise, Seghers 1946)


Aragon / Georges Brassens: Il n'y a pas d'amour heureux
Il n'y a pas d'amour heureux (Danielle Darrieux)
Il n'y a pas d'amour heureux (Françoise Hardy)

Thursday, December 16, 2010

II faut que mon coeur y mette le nom de la violette

-

Sur les berges de la Seine
Un midi de jeunes gens
Michel avec Madeleine
Pierre avec Jeanne et Germaine
Qui se promène avec Jean
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Si le ciel est plein d'oiseaux
Qu'est-ce que cela peut faire
Le feu qui brûle en enfer
Les noyés dans les roseaux
Les cailloux au fond des eaux
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Où allez où allez-vous
Hirondelles disent-ils
Est-ce enfin le mois d'avril
Doux parfum de n'importe où
Le vent ne parle qu'aux fous
II faut que mon coeur y mette
Le nom de la violette

Suis-je encore citoyen
De ce chantant paysage
Où c'est l'oublieux usage
De ne plus penser à rien
Qu'au vert bonheur mitoyen
Il faut que mon cœur y mette
Le nom de la violette

Je n'en ai plus les moyens

Louis Aragon, Le Cri du Butor (fragment) «Le Nouveau Crève-Coeur»

Wednesday, December 15, 2010

Le soleil prouvé par l’ombre enjambera les décombres


-

Maintenant que la jeunesse
S’éteint au carreau bleui
Maintenant que la jeunesse
Machinale m’a trahi
Maintenant que la jeunesse
Tu t’en souviens, souviens-t’en
Maintenant que la jeunesse
Chante à d’autres le printemps
Maintenant que la jeunesse
Détourne ses yeux lilas
Maintenant que la jeunesse
N’est plus ici n’est plus là
Maintenant que la jeunesse
Sur d’autres chemins légers
Maintenant que la jeunesse
Suit un nuage étranger
Maintenant que la jeunesse
A fui voleur généreux
Me laissant mon droit d’aînesse
Et l’argent de mes cheveux
Il fait beau à n’y pas croire
Il fait beau comme jamais
Quel temps quel temps sans mémoire
On ne sait plus comment voir
Ni se lever ni s’asseoir
Il fait beau comme jamais
C’est un temps contre nature
Comme le ciel des peintures
Comme l’oubli des tortures
Il fait beau comme jamais
Frais comme l’eau sous la rame
Un temps fort comme une femme
Un temps à damner son âme
Il fait beau comme jamais
Un temps à rire et courir
Un temps à ne pas mourir
Un temps à craindre le pire
Il fait beau comme jamais
Tant pis pour l’homme au sang sombre
Le soleil prouvé par l’ombre
Enjambera les décombres
Il fait beau comme jamais

Louis Aragon, Le Cri du Butor (fragment) «Le Nouveau Crève-Coeur»

Wednesday, December 08, 2010

Les copains d'abord

-

Les copains d'abord

Non ce n'était pas le radeau
De la méduse ce bateau
Qu'on se le dise au fond des ports
Dise au fond des ports
Il naviguait en père peinard
Sur la grande mare des canards
Et s'appelait "Les copains d'abord"
Les copains d'abord.

Ses fluctuat nec mergitur
C'était pas de la littérature,
N'en déplaise aux jeteurs de sort,
Aux jeteurs de sort,
Son capitaine et ses matelots
N'étaient pas des enfants de salauds,
Mais des amis franco de port,
Des copains d'abord.

C'étaient pas des amis de luxe,
Des petits Castor et Pollux,
Des gens de Sodome et Gomorrhe,
Sodome et Gomorrhe,
C'étaient pas des amis choisis
Par Montaigne et La Boetie,
Sur le ventre ils se tapaient fort,
Les copains d'abord.

C'étaient pas des anges non plus,
L'Evangile, ils l'avaient pas lu,
Mais ils s'aimaient toutes voiles dehors,
Toutes voiles dehors,
Jean, Pierre, Paul et compagnie,
C'était leur seule litanie
Leur Credo, leur Confitéor,
Aux copains d'abord.

Au moindre coup de Trafalgar,
C'est l'amitié qui prenait le quart,
C'est elle qui leur montrait le nord,
Leur montrait le nord.
Et quand ils étaient en détresse,
Que leur bras lançaient des S.O.S.,
On aurait dit les sémaphores,
Les copains d'abord.

Au rendez-vous des bons copains,
Y'avait pas souvent de lapins,
Quand l'un d'entre eux manquait a bord,
C'est qu'il était mort.
Oui, mais jamais, au grand jamais,
Son trou dans l'eau ne se refermait,
Cent ans après, coquin de sort!
Il manquait encore.

Des bateaux j'en ai pris beaucoup,
Mais le seul qui ait tenu le coup,
Qui n'ai jamais viré de bord,
Mais viré de bord,
Naviguait en père peinard
Sur la grand-mare des canards,
Et s'appelait les copains d'abord
Les copains d'abord.

Des bateaux j'en ai pris beaucoup,
Mais le seul qui ait tenu le coup,
Qui n'ai jamais viré de bord,
Mais viré de bord,
Naviguait en père peinard
Sur la grand-mare des canards,
Et s'appelait les copains d'abord
Les copains d'abord.

(Georges Brassens)

Vidéo:
Les copains d'abord (Georges Brassens)

ANALYSE BRASSENS: Les copains d'abord

Sunday, December 05, 2010

Bento de Jesus Caraça e a luta contra a guerra


Há quase setenta anos, precisamente no dia 11 de Novembro de 1932, numa altura em que se desenvolviam já os contornos do que viria a ser a segunda guerra mundial, um jovem professor universitário, escreveu um artigo no semanário Liberdade. Esse jovem professor, de 31 anos, chamava-se Bento de Jesus Caraça, e o artigo tinha por título A luta contra a guerra.
No contexto de séria crise internacional que actualmente se vive, parece-me útil e também necessário, nesta homenagem a Bento de Jesus Caraça recordar as suas exactas palavras que, com o passar do tempo, não perderam actualidade. Talvez seja preciso substituir as datas, uma sigla, e pouco mais. Tudo o resto se mantém vivo como se tivesse sido escrito hoje.
Escrevia, então, Bento de Jesus Caraça, no seu artigo A luta contra a guerra:

Um semanário francês publicava, há alguns meses, um desenho que, em síntese feliz, ilustrava o panorama político de então: na clínica do Doutor S. D. N. um doente – o mundo – é examinado pelo médico; este olha com terror para a língua do paciente, uma enorme língua entumescida sobre a qual se vê um canhão, e aconselha os comparsas da clínica que se comprimem à porta – não se aproximem! a língua está carregada!
De então para cá, a situação não se tem alterado nas suas linhas fundamentais, antes estas se têm demarcado com maior intensidade – o doente continua padecendo do mesmo mal, dia a dia agravado, e da boca do médico não mais têm saído do que débeis conselhos gaguejados: cuidado! a língua está carregada! – confissão clara da sua impotência para curar.
Catorze anos após o termo desse acesso de loucura que precipitou a humanidade num abismo de horror, encontramo-nos novamente na iminência de um acesso maior, estamos à beira de um abismo mais fundo. E para esse abismo rolaremos todos se, num esforço colectivo, não nos unirmos para dizer – NÃO! mas dizer – NÃO! com uma vontade firme, aquela vontade do homem forte e consciente que de antemão prevê as consequências e de antemão as aceita em toda a sua extensão e em toda a sua inteireza.
O tomar essa atitude exige, antes de mais nada, um sério trabalho interior, um trabalho de revisão de ideias e de valores morais. E não é sem esforço e sem sofrimento que esse árduo trabalho pode ser levado ao fim; pelo caminho, e por efeito de uma análise impiedosa de todos os factores do problema, aparecerão como devendo ser abandonadas muitas ilusões, muitas ideias que até aí pareceriam fazer parte integrante do nosso ser moral. Pois bem! Que haja a coragem de as abandonar e se ao cabo aparecermos outros homens – tanto melhor!
Mas é só depois de conseguida essa harmonia interior sem a qual é ilusória e inconsistente toda a tentativa de acção, que pode ser útil e profícua a projecção da vontade sobre o meio ambiente. Actuar, sim, mas com um plano; nada de esgrimir contra moinhos; alcançar os pontos de enraizamento do mal; abandonar o trapo vermelho para atingir a mão que o manobra.
Só assim a multidão dos pacifistas deixará de ser, na frase justa de Einstein, um rebanho de carneiros lamurientos num redil. E só assim esse rebanho deixará em breve de fornecer abundante carne para os canhões, esses canhões de cujo fabrico e venda as organizações capitalistas internacionais sabem tirar, com que mestria!, os grossos lucros que lhes avolumam a bolsa.
A luta contra a guerra comporta muitos e variados problemas de ordem prática; é impossível, num artigo de jornal, fazer deles sequer uma enumeração, mesmo incompleta.
Quero apenas referir-me, por agora, a um aspecto da questão – o papel que nessa luta desempenham, ou virão a desempenhar, os intelectuais.
Não é brilhante, está mesmo extremamente longe disso, a sua folha de serviços nesse particular. O exemplo da última guerra é, a esse respeito, esmagador. Salvo um pequeno número de espíritos livres e independentes – Romain Rolland acima de todos – o seu fracasso foi completo. Em vez de lançarem na balança todo o peso do seu prestígio para procurarem evitar o desencadeamento da catástrofe e pôr ordem num caos de loucura, usaram desse mesmo prestígio para activar a fogueira, para aumentar a desordem. Onde deviam elevar-se, aviltaram-se, ao desempenho de uma missão nobre e humana preferiram a traição.
Está, ao menos, a situação mudada no presente? Vêem-se, porventura, sinais claros e precisos de um propósito de resgatar um passado escuro? A verdade deve dizer-se, sempre e acima de tudo, e a verdade é – não! Existem, sem dúvida, núcleos apreciáveis de homens firmes, de “homens de boa vontade” que, na luta contra a guerra, põem o melhor da sua inteligência e da sua actividade – o recente congresso de Amsterdam é disso uma prova bem patente – mas, infelizmente, a maioria, a grande maioria dos intelectuais apresta-se para uma nova renegação do espírito. Se uma guerra estalar, e nunca estivemos tão perto dela, veremos de novo surgir, por esse mundo, milhares de fáceis heróis de escrevaninha, a bolsar as mesmas torrentes de mentiras que levem à frente da batalha – os outros… e lhes assegurem a eles cómodas situações à retaguarda.
O mundo está, como estava em 1914, governado por homens inferiores, caricaturas de homens, e o que eles governam não é uma sociedade humana – é uma caricatura de sociedade humana.
E será assim, enquanto homens novos não tomarem a direcção do mundo para fazer dele uma sociedade de homens livres.
Que todos se apercebam bem disto – no momento que passa, a trincheira da luta pela Humanidade é a trincheira da luta contra a guerra. É a hora de falar claro e de cada um escolher a sua posição.
A minha está escolhida há muito tempo.

Assim terminava o artigo de Bento de Jesus Caraça.
Devo dizer que tenho sempre um embaraço quando intervenho em homenagens a Bento de Jesus Caraça. Por um lado, não tenho os dons oratórios e conhecimentos que estejam à altura de uma das nossas mais importantes figuras do século XX. Mas, por outro lado, há uma enorme dívida de gratidão que tenho, que todos nós temos, para com o professor, para com o homem de ciência, de cultura, e de acção, que ele foi. E é ele, Bento de Jesus Caraça, que da já distante primeira metade do século passado, nos impõe o dever de falar, porque temos que lançar na balança todo o peso do nosso prestígio (por pequeno que seja o de cada um) para procurar evitar o desencadeamento da catástrofe e pôr ordem num caos de loucura.
Parece que a situação internacional mudou radicalmente de há três meses para cá. O futuro o dirá, mas, provavelmente, mudou mesmo. Todavia, sem querer minimizar a profunda gravidade do sucedido em 11 de Setembro, há que assinalar que a História não começou nessa data.
As próprias autoridades do país vítima dos atentados do dia 11 de Setembro último classificaram-nos como actos de guerra. Não me sinto capaz de discutir tal designação. Lembro apenas que, no decurso da segunda guerra mundial foram lançadas, pelos Estados Unidos, bombas atómicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki que destruiram bens e pessoas em quantidade muito maior do que agora, constituindo um precedente que, felizmente, até ao presente momento, não teve sequência. Este foi apenas um precedente extremo do ocorrido há três meses. Muitos outros exemplos se poderiam dar.
Mas há, concerteza, dois aspectos novos nos atentados de 11 de Setembro. Por um lado, a envolvente técnica e a espectacularidade radicalmente inéditas. Por outro lado, o facto de terem atingido cidades do país mais poderoso do planeta, quando, até aí, só tinham sofrido bombardeamentos cidades de países fracos ou militarmente muito debilitados: cidades como Bagdad, Belgrado ou a capital do Panamá, para falar, apenas, em alguns casos mais recentes.
Esses dois aspectos não justificam, em minha opinião, que se arraste todo o mundo para guerras de consequências totalmente imprevisíveis.
O pretexto que tem servido de justificação para estas guerras tem sido o desmantelamento do terrorismo. Ora, o terrorismo dos pobres ou que, por qualquer via, tem origem no terceiro mundo é, no essencial, um subproduto da exploração, da miséria que ela acarreta, da ingerência económica e militar e, fundamentalmente, da guerra. Fazer uma guerra global dita para combater o terrorismo é, para todos os efeitos, dar sequência a um ciclo infernal que conduzirá, inevitavelmente, a mais perdas de vidas humanas e bens materiais. A guerra não é, portanto, uma solução para acabar com o terrorismo mas é, pelo contrário, uma das suas raízes.
As guerras actuais, nomeadamente esta que tem sido conduzida contra o povo do Afeganistão, são, em si mesmas, formas de terrorismo. Com a agravante de serem conduzidas por países ricos, poderosos técnica e militarmente, esmagadoramente poderosos, países que, por isso mesmo, têm os meios para resolver os problemas pela via pacífica.
O poderio militar que bombardeia sem possibilidades de defesa tem sido de tal maneira avassalador que as populações aterrorizadas, verdadeiramente aterrorizadas, são obrigadas a fugir para campos de refugiados, muito longe dos locais onde viviam. E acontece que, mesmo antes de dispararem um único tiro, estes ataques, ditos cirúrgicos, já mataram muito mais gente do que aquela, também inocente, que morreu em 11 de Setembro deste ano. É que, muitos desses fugitivos acabam por morrer de frio, fome e doenças nos campos de refugiados. Não é isto uma forma suprema de terrorismo?
Há muitas coisas estranhas em toda esta actividade bélica, que, aliás, estão documentadas na imprensa, em livros, na internet, em vídeo. Todos nós temos o dever de procurar a informação para, tal como dizia Bento de Jesus Caraça, alcançar os pontos de enraizamento do mal e abandonar o trapo vermelho para atingir a mão que o manobra.
A este propósito, assinalo dois factos que toda a gente conhece mas que acabam sempre perdidos nas montanhas de informações com que, também nós, somos bombardeados.
Primeiro facto. Os aliados de ontem (melhor seria chamar-lhes cúmplices) são os inimigos de hoje, mas os povos é que sofrem as consequências. O que está a suceder agora, sucedeu já, por exemplo, no Panamá, onde bairros inteiros foram arrasados a pretexto de um ajuste de contas entre antigos comparsas. Isto deve servir de lição no que diz respeito à escolha dos aliados. É que, quem se mete com criminosos e assassinos, acaba manchado de sangue e, o que é mais grave, envolve no processo triturador pessoas completamente inocentes.
Segundo facto. Bloqueiam-se, agora, contas bancárias que se dizem financiar o terrorismo. Mas nada se diz ou faz a propósito dos capitais que circulam e que estão envolvidos com o crime organizado, o tráfico de droga, o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro. Os paraísos fiscais continuam intocáveis contra a vontade das populações.
A verdade é que o que está por detrás de tudo isto são os grandes interesses geoestratégicos com particular relevância para aqueles que se prendem com o petróleo. É necessário pôr um travão a este colonialismo do século XXI, afinal tão parecido nas intenções com o seu avô do século XIX, mas diferente nos meios técnicos militares, muito mais poderosos agora.
É sempre tempo de dizer – Basta! E creio que essa é uma forma de, hoje, prestarmos homenagem a Bento de Jesus Caraça.

Jorge Rezende. Lisboa, 11 de Dezembro de 2001
[Intervenção feita no INSTITUTO ROCHA CABRAL a convite do saudoso Professor Ruy Pinto]

Monday, November 29, 2010

Malhas que o Império tece!...


O Menino da Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas traspassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

(Fernando Pessoa)

Sunday, November 21, 2010

294 «indivíduos»


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Homenagem à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos no seu 40° Aniversário
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No âmbito da Homenagem à Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, nos 40 anos da sua constituição, alguns elementos que integraram também a Comissão Regional de Socorro aos Presos Políticos decidiram promover, no PORTO, um Almoço/Convívio, no próximo dia l de Dezembro de 2010, com o objectivo de juntar, nesta Confraternização, membros da ÇRSPP e outros Amigos e lutadores antifascistas.
É com o maior gosto que lhe endereçamos Convite, desejando que lhe seja possível estar presente.
Porto, Novembro de 2010

AMÂNDIO SECCA * ANTÓNIO MACEDO VARELA * CÉSAR PRÍNCIPE * FREI BERNARDO DOMINGUES * JOSÉ RODRIGUES * MANUEL CASTRO MONTEIRO * MARIA EUNÍCIA SALGADINHO * MARIA JOSÉ RIBEIRO * MARTA CRISTINA ARAÚJO
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Vídeo:
Era um redondo vocábulo
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(Nota: o logotipo da CNSPP é de )

Friday, November 12, 2010

O que há para além das imagens



O que há para além das imagens

Quando preparava a Fotobiografia de António Aniceto Monteiro interessei-me, como era lógico, por obter documentos relativos a Aureliano de Mira Fernandes. Assim, fiz o que era meu hábito: utilizei a lista telefónica, então sob a forma electrónica de acesso livre pela internet, para saber a morada dos familiares. No dia 28 de Fevereiro de 2006, uma 3ª feira, com uma lista de mais de uma dezena de nomes e números, fui fazendo telefonemas até encontrar alguém da família que me indicou a filha mais velha de Mira Fernandes – Maria Adelaide Mira Fernandes – que morava na Rua Luís de Camões, 65, 2º D, em Algés. Falei nesse mesmo dia com ela por telefone e disse-lhe quem era e o que pretendia.
No domingo seguinte, dia 5 de Março, de manhã, quando há menos trânsito, fui lá a casa, de surpresa. Para meu espanto, a senhora, já com cerca de 95 anos, abriu-me a porta sem qualquer problema ou desconfiança, coisa que nem sempre sucedeu com gente muito mais nova. Conversámos e mostrou-me as fotografias que possuía – únicas recordações que tinha do pai, segundo disse. Estava numa situação difícil porque, além de ter uma prótese numa anca, tinha o filho no hospital há dois anos depois de ter sofrido um AVC, tendo ela que se revezar com a nora, todos os dias, para o apoiar. Disse-lhe então que lhe telefonaria mais tarde para ir lá digitalizar as fotografias porque tinha que combinar primeiro com quem me iria ajudar a transportar o computador e o digitalizador. Podia ter tentado pedir-lhe as fotografias emprestadas, para as devolver no dia seguinte, depois de digitalizadas, mas preferi a penosa alternativa, para não lhe dar a ideia que pudesse apropriar-me delas ou, eventualmente, perdê-las. Não seria novidade, visto que foi isso que sucedeu, segundo me disseram, na Academia das Ciências, com as que foram a caminho das tipografias – desapareceram. Também desejava que não tivesse qualquer receio de me mostrar todos os documentos que possuía – mesmo que fosse uma carta de Einstein eu não a retiraria daquela casa.
No dia 15 acordámos em que iria no dia seguinte, uma 5ª feira, de manhã. Levámos como presentes um vaso com begónias e uma fotocópia de uma carta de Mira Fernandes para Ruy Luís Gomes do final de 1934 – «...sou Sôgro, ha um mês! Sôgro! Gosto muito do meu Genro, gostei muito que a minha Filha se casasse, mas entendo que a palavra fatal só devia ter feminino!». E agora, setenta anos passados, ali estava, à minha frente, aquela que tinha «provocado» esta «perturbação» no pai... Enquanto fazia o meu trabalho, conversámos...
Há muitos anos aposentada, Maria Adelaide tinha sido funcionária numa repartição. No tempo dela não era costume as raparigas serem incentivadas a tirar cursos superiores. Mas era uma republicana como o pai. Em mais nova devia ter sido uma pessoa alegre. E era ousada como se pode ver pelo seguinte episódio que me contou. Em 10 de Novembro de 1961, Hermínio da Palma Inácio e outros desviaram um avião da TAP e sobrevoaram Lisboa lançando milhares de panfletos. Maria Adelaide apanhou vários na rua, escondeu-os na roupa e distribuiu-os na repartição.
Contou-me que o pai tinha participado na revolução de 5 de Outubro de 1910 e que chegara a ser convidado para o governo republicano, tendo recusado.
Mira Fernandes era amigo de José Manuel Sarmento de Beires, o aviador que realizou em 1924 o raid aéreo Lisboa-Macau conjuntamente com Brito Pais e Manuel Gouveia, e era irmão de Rodrigo Sarmento de Beires que viria a ser professor catedrático de matemática na Universidade do Porto. Um dia quis convencer Mira Fernandes, sem sucesso, a deixá-lo levar as duas filhas adolescentes a dar uma volta de avião... Este episódio aconteceu antes de 1928, porque nessa data este Sarmento de Beires, militar e aviador, que pertencia ao Partido Republicano, participou numa revolta militar e acabou por passar à clandestinidade. Envolveu-se na guerrilha e foi preso quatro anos depois, tendo sido visitado na cadeia por Ruy Luís Gomes. Mais tarde, no Brasil, no exílio, viria a encontrar António Aniceto Monteiro. Anos depois, o irmão do aviador, Rodrigo, que politicamente estava muito afastado de José Manuel, ainda assim apoiou Ruy Luís Gomes durante as perseguições que o fascismo lhe moveu, como é sabido. Contou-me o Eng. Manuel Beires que, talvez depois de 1958, António Luiz Gomes, já muito idoso, foi, a pé, da sua casa, na Rua da Restauração, à Arca d’Água, agradecer a Rodrigo Sarmento de Beires essa solidariedade prestada ao filho. Quando Sarmento de Beires lhe propôs chamar um táxi para o regresso, o velho político dos primórdios da República agradeceu mas disse que preferia regressar como tinha ido: a pé...
Conto isto para mostrar não só a «fibra» destas pessoas mas também que todos eles se conheciam muito bem, eram amigos, solidários, e que tinham interesses e actividades comuns que iam da Ciência à Política. Mira Fernandes conhecia perfeitamente Ruy Luís Gomes e teve grande influência tanto nele como em Bento de Jesus Caraça, de quem foi o padrinho do primeiro casamento.
Mira Fernandes, tal como Ruy Luís Gomes, mantinha correspondência científica com personalidades estrangeiras, como Levi Civita, caso muito raro na época. Melhor do que descrito por mim, o relacionamento científico entre Mira Fernandes, Levi Civita, Ruy Luís Gomes, e outros, está registado em vários documentos como, por exemplo, o artigo de José Morgado «O professor Ruy Luís Gomes e o Movimento Matemático Português».
Para meu espanto e meu desapontamento, Maria Adelaide disse-me que tinha destruído todos os papéis do pai que possuía porque não queria que um dia pudessem servir «para embrulhar sabão» nalguma loja. Mas antes de tal destruição ter acontecido já alguém tinha feito «desaparecer» uma carta de Albert Einstein...
Recordo Maria Adelaide como uma mulher inteligente, afável e de uma infelicidade serena. Não a voltei a ver. Depois de lá ter ido a casa, mandei fazer umas magníficas reproduções em papel das fotografias do pai e enviei-lhas como agradecimento. Ficou muito sensibilizada, distribuiu-as pela família, telefonou frequentemente. Foi assim que conheci a irmã, muito mais nova, Maria Margarida, que me confirmou não haver mais documentos relativos a Aureliano de Mira Fernandes. Ficou-me a impressão que ele, além do seu amor paterno, mantinha com as filhas uma relação de muita proximidade e até de cumplicidade.

Jorge Rezende, Junho de 2009

Fotografias digitalizadas em casa de Adelaide Mira Fernandes:
Aureliano de Mira Fernandes (1)
Esta fotografia foi tirada em Coimbra no fotógrafo A G Tinoco Photo, Largo das Ameias, 4, Coimbra. Nas costas está escrito (datas?) “909-910, 910-911”. Como em 1909 Mira Fernandes conseguiu o grau de Bacharel, e em 1910 o de licenciado, esta fotografia pode ter sido tirada ou em 1909 ou em 1910 para assinalar um desses acontecimentos. Ladeiam-no dois gémeos que deviam ser amigos de Mira Fernandes e também estudantes em Coimbra.
Aureliano de Mira Fernandes (2)
Esta fotografia foi tirada em Coimbra no fotógrafo A G Tinoco Photo, Largo das Ameias, 4, Coimbra. Nas costas vem «À minha querida Filha Maria Adelaide [assinatura]”. Tem escrita a data “1909”. Como em 1909 Mira Fernandes conseguiu o grau de Bacharel, e em 1910 o de licenciado, esta pode ter sido tirada em 1909 ou em 1910 para assinalar um desses acontecimentos.
Aureliano de Mira Fernandes (3)
A fotografia é do fotógrafo Vidal Fonseca, de Lisboa. Nas costas vem «À minha querida filha Maria Adelaide, 1911-1922 [assinatura]». Posteriormente acrescenta a dedicatória «Ao Mário com um grande abraço [assinatura]». «Mário» era o genro. Esta fotografia pode ser de 1922 e pode ser uma espécie de fotografia oficial de Professor do IST.
Aureliano de Mira Fernandes (4)
Esta fotografia é do fotógrafo Furtado & Reis, Rua Santa Justa, 107, Lisboa, e tem o número 49722. Nas costas tem a dedicatória «À minha querida Filha Maria Adelaide, e ao meu genro Mario Lima [tem uma data (?) que pode ser 1935] [assinatura]». A filha, Maria Adelaide, casou-se em 5 de Dezembro de 1934. Pode ser mais uma fotografia oficial de Professor do IST.
Aureliano de Mira Fernandes (5)
Mira Fernandes em frente ao quadro dando uma aula. Esta fotografia nada tem escrito nas costas.
Esta fotografia tem, nas costas, o carimbo «Reportagens fotográficas STEP, Rua dos Anjos, 26, 3º, Lisboa, Telef. 46257, Registo nº 23520» e a seguinte anotação «Almoço de Homenagem no IST em 16/6/54». Nessa data, fazia Mira Fernandes setenta anos, tratando-se portanto de uma homenagem pelo seu jubileu.



[Capa do Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, de homenagem a Mira Fernandes, onde foi publicado o texto O que há para além das imagens]

Friday, October 29, 2010

Matemática e Arte no Fórum Eugénio de Almeida em Évora

Tower of Babel 1928 woodcut

Day and Night 1938 woodcut in black and grey, printed from 2 blocks

Drawing Hands 1948 Lithograph

Images from the Gallery of The Official M.C. Escher Website

Matemática e Arte no Fórum Eugénio de Almeida
Exposição inédita de obras de M.C. Escher

A Fundação Eugénio de Almeida (FEA) expõe “A magia de M.C. Escher”, uma mostra que reúne cerca de 50 trabalhos do artista holandês que brincava com a arquitectura, a perspectiva e os espaços impossíveis, naquela que é a primeira mostra de trabalhos de M.C. Escher em Portugal.
Famoso pelas estruturas impossíveis, representadas no famoso quadro Relativity onde escadas sobem e descem em todas as direcções, e por desafiar as leis da perspectiva através da exploração do espaço tridimensional, a obra de M.C. Escher traduz uma observação afiada do mundo e a expressão da sua própria fantasia.
Tower of Babel, Day and Night e Drawing Hands são algumas das obras que estarão patentes no Fórum Eugénio de Almeida até 30 de Janeiro de 2011.

Horário: 09h30 às 19h00
Local: Fórum Eugénio de Almeida

Rua Vasco da Gama, 13, Évora
Informações: 266 748 350
Preço: 1€

[Esta é a informação oficial sobre a exposição]

Sítio da Fundação Eugénio de Almeida

Saturday, October 23, 2010

Wednesday, August 18, 2010

Se equivocó la paloma

García Lorca, Mª Teresa León y Rafael Alberti en Madrid (1934)
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«Sea como fuere, el poeta [Lorca] fue llevado al pueblo de Víznar junto con otros detenidos. Después de pasar la noche en una cárcel improvisada, lo trasladaron en un camión hasta un lugar en la carretera entre Víznar y Alfacar, donde lo fusilaron antes del amanecer.
Aunque no se ha podido fijar con certeza la fecha de su muerte, Gibson supone que ocurrió en la madrugada del 18 de agosto de 1936. En documentos oficiales expedidos en Granada puede leerse que Federico García Lorca “falleció en el mes de agosto de 1936 a consecuencia de heridas producidas por hecho de guerra”.»
[La muerte - Fundación Federico García Lorca]
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Rafael Alberti: Se Equivocó la Paloma
Joan Manuel Serrat: La Paloma
Sergio Endrigo: La Colomba

Monday, August 16, 2010

La tarde del 16 de agosto de 1936, Federico García Lorca fue detenido en casa de los Rosales por Ramón Ruiz Alonso


«El 17 de julio estalló en Marruecos la sublevación militar contra la República, y desde Canarias, Francisco Franco proclamó el Alzamiento Nacional. Para el día 20, el centro de Granada estaba en manos de las fuerzas falangistas. Durante la revuelta, el cuñado de Federico, Manuel Fernández-Montesinos, marido de su hermana Concha y alcalde de la ciudad, fue arrestado en su despacho del Ayuntamiento; al cabo de un mes fue fusilado a mano de los rebeldes.
Dándose cuenta de que sería peligroso quedarse en la Huerta de San Vicente, Federico sopesó, con su familia, varias alternativas: intentar llegar a la zona republicana; instalarse en casa de su amigo Manuel de Falla, cuyo renombre internacional parecía ofrecerle protección, o alojarse en casa de la familia Rosales, en el centro de la ciudad. Esta última opción fue la que escogió Lorca, pues tenía una relación de confianza con dos de los hermanos del poeta Luis Rosales, que eran destacados falangistas.
La tarde del 16 de agosto de 1936, Lorca fue detenido en casa de los Rosales por Ramón Ruiz Alonso, un ex diputado de la CEDA, derechista fanático, que sentía un profundo odio por Fernando de los Ríos y por el poeta mismo. Según Ian Gibson, biógrafo de Federico, se sabe que esta detención “fue una operación de envergadura. Se rodeó de guardias y policías la manzana donde estaba ubicada la casa de los Rosales, y hasta se apostaron hombres armados en los tejados colindantes para impedir que por aquella vía tan inverosímil pudiera escaparse la víctima [Federico García Lorca, vol. II, p. 469].
Lorca fue trasladado al Gobierno Civil de Granada, donde quedó bajo la custodia del gobernador, el comandante José Valdés Guzmán. Entre los cargos contra el poeta –según una supuesta denuncia, hoy perdida y firmada por Ruiz Alonso– figuraban el “ser espía de los rusos, estar en contacto con éstos por radio, haber sido secretario de Fernando de los Ríos y ser homosexual [Federico García Lorca, vol. II, p. 476]. Fueron infructuosos los varios intentos de salvar al poeta por parte de los Rosales y, más tarde, por Manuel de Falla. Según Gibson, “hay indicios de que, antes de dar la orden de matar a Lorca, Valdés se puso en contacto con el general Queipo de Llano, jefe supremo de los sublevados de Andalucía”.
Sea como fuere, el poeta fue llevado al pueblo de Víznar junto con otros detenidos. Después de pasar la noche en una cárcel improvisada, lo trasladaron en un camión hasta un lugar en la carretera entre Víznar y Alfacar, donde lo fusilaron antes del amanecer.»
[La muerte - Fundación Federico García Lorca]
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